A Parábola do Semeador e o Triunfo do Reino – Lc 8,4-15

Por Hermes Fernandes

No contexto da perícope de Lc 8,4-15; Jesus está no auge de sua atividade na Galileia. Até aqui, o texto lucano tem se ocupado de tratar das origens de Jesus, e sua revelação como o Messias esperado. Mostra minuciosamente sua relação com as promessas proféticas, bem sinalizadas pelas narrativas paralelas de sua infância e a de João Batista, e as constantes referências ao Profeta Isaías. Sua atividade na terra natal, a Galileia, é marcada pela inauguração de seu ministério (Lc 4,16+), e o encontro com os primeiros discípulos (Lc 5,1-11; 5,27-32; 6,12-16). Algumas curas intercalam os acontecimentos neste momento, tais como: o leproso (Lc 5,12+), o paralítico (Lc 5,14-26), o homem com a mão seca (Lc 6,6-11), e o servo do centurião (Lc 7,1-10). Estas manifestações de poder e bondade chamaram a atenção. Provocaram a admiração de uns (Lc 5,15- 16) e o desconfiado embate de outros (Lc 5,33-39; 6,1-6). Aqui vale lembrar que as curas exercidas por Jesus não nos pode significar exibicionismo taumaturgo. São gestos de misericórdia e reintegração na comunidade. Ainda neste bloco do Evangelho, temos um paralelo com o texto mateano, conhecido como Sermão da Montanha, no qual, nos é apresentado o programa da mensagem messiânica. Tal qual Mateus, Lucas inicia estes discursos com as Bem-aventuranças (Lc 6,20-26), e segue com uma série de conselhos sobre a ética das boas relações. O Evangelho inaugura uma nova forma de ser e viver. Instaurando um tempo de partilha, respeito à toda criatura e fraternidade entre todos os humanos. Ainda temos bem marcada a universalidade da mensagem de Jesus com as perícopes que tratam do encontro de Jesus com o centurião romano (Lc 7,1-9) e a viúva de Naim (Lc 7,11-17). Como não poderia faltar, o texto lucano sublinha, entrementes, a dimensão da misericórdia. No banquete na casa do Fariseu Simão, uma mulher – pecadora reconhecida por todos – lava os pés de Jesus (Lc 7,36-50). Diante do estranhamento de todos, o Mestre aproveita para apresentar a proposta do Reino. Nele, o Reino, os pecadores públicos são reintegrados na comunidade, tendo suas vidas ressignificadas; opondo-se à exclusão costumeira que a religião judaica dava aos que acreditavam ser indignos de seu convívio e respeito humano.

À guisa de conclusão deste bloco de narrativas, descrevendo de forma apurada, Lucas nos faz perceber que Jesus tem grande sensibilidade para com aqueles e aquelas que são tratados de forma coisificada pela religião e sociedade judaicas. O trecho de Lc 8,1-3 nos revela uma grande novidade no jeito de ser e agir do profeta galileu. Em seu meio, as pessoas tem igual valor. Ao contrário do que comumente acontecia na sociedade de seu tempo, as mulheres eram bem vindas em seu grupo. São chamadas de discípulas e – de certa forma – louvadas pelo evangelho lucano, dada a importante contribuição e participação na comunidade de Jesus. Para seu tempo, uma mentalidade e jeito de ser quase subversivos.

Por fim, chegamos à belíssima Parábola do Semeador (Lc 8,4-16). É o ápice da atividade de Jesus na Galileia. O texto lucano nos mostra que o Mestre adapta esta parábola, o quanto possível, para o público que o ouve. Ali, grande parte dos seus ouvintes eram de origem gentia, chamados pelos “judeus puros” de pagãos. Por isso, Jesus apresenta a essência desta parábola em seu desfecho final. Mesmo com todas as dificuldades, o semeador tem uma colheita além da melhor das expectativas. Com isso, Jesus afirma que o mesmo acontecerá com o Reino de Deus. Apesar das dificuldades, o Reino se implantará além do que se espera. O Reino de Deus triunfará! A vida vencerá a morte. Os pobres, excluídos, marginalizados; terão seu Ano da Graça, pois o Reino já lhes pertence (Lc 6,20). Este Reino transformará a sociedade e a história, realizando a vontade de Javé, em resposta às suplicas dos pobres, ressignificando suas vidas; conforme nos apresenta o Cântico de Maria, o Magnificat (Lc 1,46-55).

Esta parábola não foi fácil de ser entendida. Em meio ao sofrimento, muitas vezes estamos cegos e surdos à verdade. Quanto mais quando estamos na condição de marginalizados e excluídos. Em tempos nos quais os poderosos fazem dos pequenos “de gato e sapato”, a promessa de que o Reino de Deus há de triunfar, de que a semente dará uma boa colheita, é – de certa forma – inacreditável. A promessa de libertação muitas vezes é chamada de sonho de criança. O Evangelho de Jesus e seu Projeto de vida digna e fraterna, poderia ser uma mera metáfora. O Mestre galileu não poderia estar falando sério! Por isso, em sua grande maioria, os destinatários do Reino, sequer entendiam o que lhes era de Direito.

O Mestre não se faz de rogado (Lc 8,9-10). Jesus – conforme o costume rabínico da época – passou a explicar a Parábola do Semeador. Fomentando nas cabecinhas de seus ouvintes o sentido da Palavra anunciada. Os discípulos perguntaram o significado da parábola, mas Jesus vai além. Sua resposta é mais ampla, pois “os mistérios do Reino de Deus” envolvem toda a palavra e a ação de Jesus. Assim, poderão compreender o porquê de estarem comprometidos com Ele. E porque o seguem. Eles precisam entender que o Reino de Deus já está presente em Jesus e em sua atividade, da qual, eles participam.

A explicação da Parábola é, na verdade, uma adaptação alegórica feita pela comunidade cristã, que a transpôs para a sua realidade. Antes, a Parábola queria dizer que Jesus teria sucesso e o Reino se implantaria. Agora (Lc 8,11-15), o texto lucano faz uma análise da reação das pessoas à Palavra do Evangelho, aqui simbolizada pela semente. Cada tipo de ouvinte é um tipo de terreno que reage de forma diferente à proposta do Reino. A explicação feita por Jesus da Parábola se torna um convite para que a comunidade examine profundamente sua vida, sondando até que ponto ela se deixou convencer e comprometer com o Evangelho. Afinal, que tipo de terreno somos nós? Como acolhemos a semente do Reino de Deus?

Nesta altura de nossa reflexão, podemos fazer um paralelo entre nossa dificuldade de compreender a proposta do Reino e as tentações impostas a Jesus no relato de Lc 4,1-13. As dificuldades que minam nossa disposição com o projetos do Reino, nossa boa vontade para com o Evangelho, são similares às tentações – pelas quais – passou Jesus. Somos bombardeados pelos problemas do dia a dia. Pela busca de segurança financeira. Pelo desejo de riqueza, prestígio, poder. Pela busca constante por prazer. Aqui não entendamos prazer por uma ótica puritana, mas em seu sentido amplo. A satisfação em todas as coisas. Quando ficamos divididos entre os nossos projetos de satisfação pessoal e os projetos de Jesus, somos provados em nossa decisão de seguir ou não a Jesus em sua totalidade. A semente apresentada como elemento da Parábola nos deixa bem claro o sentido de comprometimento. Antes de germinar, a semente tem que eclodir dentro da terra. Deve morrer, para dar frutos. Ser discípulo e discípula de Jesus é eclodir (morrer) para os projetos do mundo, ou seja, a busca por riqueza, prestígio, satisfação e poder; e frutificar para as propostas do Reino. Se não nos comprometermos com o chamado de Jesus, seremos como sementes que morrem, sem frutos. Parece difícil. Quase impossível! Mas ser cristão e cristã não é exatamente isso? Jogar-se em confiança no infinito? Só a ousadia e a coragem dos verdadeiramente comprometidos com o Evangelho chegarão ao benfazejo desfecho da Parábola.

O fim da catequese em forma de parábola é encorajador. Há quem “ouve de coração bom e generoso, conservam a Palavra e dão fruto na perseverança” (Lc 8,15). São os verdadeiros discípulos e discípulas de Jesus que, não obstante as dificuldades, continuam na peleja pela instauração do Reino de Deus. Nestes, a terra boa onde a semente foi plantada, o Reino, vai se tornando presente e transformando a realidade. Somos estes discípulos e discípulas? Esta terra boa?

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