25º Domingo do Tempo Comum – A verdadeira riqueza: servir a Deus e aos irmãos


Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” (Lc.16,13)

Por Pe. Paulo Sérgio Silva.
Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito.

A liturgia continua nos levando a acompanhar Jesus enquanto Ele sobe para Jerusalém. Desta vez ao invés de falar para uma grande multidão curiosa ou para seus opositores (fariseus e mestre da lei), Cristo fala diretamente para seus discípulos. Sua catequese convida os discípulos de todas as eras a fazer uma reflexão sobre o lugar que os bens materiais assumem na vida. A Palavra convida aos anunciadores do Reino de Deus a ser prudentes e sensatos a fim de evitar que a ganância e o desejo do lucro se tornem as forças que movem seus corações.

Na primeira leitura (Am 8,4-7), encontramos o profeta Amós, um simples pastor e agricultor que foi chamado por Deus para denunciar a injustiça e a idolatria aos bens materiais. Amós denuncia os comerciantes desonestos que enquanto exploravam os mais pobres se escondiam sob a imagem de piedosos observadores da Lei e das Festas Religiosas. Para aqueles que tornaram o lucro um “deus” e fingem não perceber o mal causado por sua injustiça e desonestidade, os oráculos anunciados pelo profeta revelam: mesmo que aparentem estar prosperando diante de Deus, de nada adiantará uma observância dos ritos e práticas religiosas se esta religião não frutificar em atitudes éticas em favor dos mais fracos e pobres, pois Deus jamais permanecerá do lado daqueles que escravizam os irmãos por causa do lucro e da ganância. Em nossa sociedade presente, onde cada vez se torna comum a manipulação da consciência religiosa para obtenção de dinheiro, fama e poder, a mensagem do profeta Amós continua atual e inegavelmente necessária. Sim. Infelizmente a mensagem do profeta continua atual, pois por causa do dinheiro muitos corrompem e outros se deixam corromper.

Na segunda leitura (1Tm 2,1-8), continuamos acompanhando as palavras do Apóstolo Paulo para seu inseparável amigo e companheiro de missão, Timóteo. Paulo exorta-o a não esquecer a verdadeira riqueza de uma comunidade de fé: a Oração. Por isto, suplica para que as comunidades façam orações por todos e principalmente por aqueles que ocupam cargo de lideranças e governos. Pois, deles, as autoridades constituídas, depende o bem-estar social e a paz, condições necessárias para que os cristãos possam viver com tranquilidade, na fidelidade à sua fé, uma vez que cabe aos governantes bem administrar os bens públicos afim de que todos tenham as mesmas condições na sociedade. Assim, percebemos que aos cristãos que se colocam a serviço de cargos de vida pública, a fidelidade a sua fé irá exigir que se preocupem verdadeiramente com as dores e esperanças de todos, e evitem a tentação de tornar a política um meio de enriquecimento pessoal e familiar. O discípulo de Jesus Cristo, seja ele ocupante de cargos civis ou não, sempre será chamado a vencer egoísmo para assumir os valores do Reino como o amor, a solidariedade, a partilha e a fraternidade.

Evangelho (Lc. 16,1-13) apresenta a parábola do administrador desonesto. Se trata de uma parábola de complicada compreensão uma vez que uma leitura desatenta pode facilmente levar-nos a pensar que Jesus está elogiando o administrador e sua desonestidade. Eis os fatos: um homem rico recebe denúncias sobre a desonestidade de um funcionário. O patrão resolve demiti-lo e este renuncia aos lucros da sua comissão que lhe eram de direito para que os devedores do patrão pudessem pagar suas dívidas e lhe fossem gratos através da amizade.

Muito cuidado nesta hora. A parábola não deseja apresentar o administrador como modelo a ser seguido. E obviamente que Jesus não está convidando a imitar a sua desonestidade, mas a sua capacidade de enxergar finalmente a verdadeira riqueza: a fraternidade ou amizade. Ele renunciou ao lucro imediato das suas comissões, a fim de buscar a segurança de amigos quando o dinheiro acabasse já que de qualquer modo iria perder seu emprego.

Jesus é taxativo e encerra o ensinamento como uma verdade incontestável: não se pode servir a Deus enquanto se idolatra o dinheiro. Entendamos bem: Jesus não condena a riqueza em si e sim os meios ilícitos para usa obtenção e também o mau uso dela. A idolatria ao dinheiro pode facilmente fechar o coração em um egoísmo cego.  Sendo assim, ou se serve a Deus, usando o dinheiro de modo honesto, ou se eleva o dinheiro ao centro da vida humana. Os valores do Evangelho nos lembram que ao invés de usarmos os bens materiais apenas em benefício próprio, precisamos pensar também nas necessidades do próximo, de modo semelhante ao próprio Cristo, que segundo São Paulo, “sendo rico se fez pobre por nós, a fim de nos enriquecer pela pobreza” (2Cor 8,9).

Em uma sociedade vazia de espiritualidade como a nossa, a cada dia aumenta o número daqueles que servem ao dinheiro, mas não se utilizam do dinheiro para servir a Deus e aos irmãos. Não é à toa que cada vez mais se fala nos males do “deus Mercado” cujo poder leva muitos a vender sua dignidade, sua consciência e até mesmo manipular os princípios de sua fé para ganhar mais dinheiro. Numa corrida desenfreada e obsessiva pelo lucro, caímos escravos de desejos que nos levam a desprezar Deus, a família e nossa própria saúde mental, física e espiritual. E sem escrúpulos algum sacrificamos a vida humana como se pudéssemos comprá-la de volta. Tudo isso porque esquecemos o valor imensurável da dignidade humana que foi na verdade comprada por um alto preço (1Cor. 6,20), no entanto “não ao preço de coisas perecíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, cordeiro sem defeito e sem mancha” (1Pd.1,18).

A parábola se torna então uma imagem da vida humana. Tudo que utilizamos não é nosso, é dom de Deus ofertado para ser bem administrado. E isto exigirá sempre coerência e honestidade, pois se não somos fiéis cuidando dos bens materiais que são as pequenas coisas aos olhos de Deus, como Ele irá nos confiar a vida eterna (o verdadeiro bem)? Cabe-nos então buscar um outro tipo de lucro: a Graça de Deus. E permanecer atentos para “Não ficar devendo nada a ninguém, a não ser o amor que deveis uns aos outros; pois quem ama o próximo, cumpre plenamente a Lei”. (Rm.13,8).

Colaborou: Diocese de Crato – CE

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