24º Domingo do Tempo Comum: O amor de Deus foi derramado em nossos corações

Haverá no céu mais alegria por um só pecador que converte…”
(Lc.15,7)

Por Pe. Paulo Sérgio Silva
Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Farias Brito

A liturgia deste domingo, com o intuito de revelar o verdadeiro rosto e coração de Deus, centraliza a nossa reflexão catequética na misericórdia e no amor divinos. Sendo assim, nós, seu povo e seu rebanho atual, assim como no Antigo e no Novo Testamento encontramos Deus em um momento fundamental da nossa história e vislumbramos a real necessidade de O conhecer verdadeiramente, afim de vivermos nossa filiação guiados não pelo medo ou rancor, mas pelo seu Amor.

primeira leitura (Ex 32,7-11.13-14) nos introduz em um momento crucial e fundamental para a Fé e a História do Povo de Israel. Moisés sobe ao Monte Sinai, Deus sela e celebra a conclusão da Aliança e lhe entrega as Tábuas da Lei. Enquanto isto, o Povo faz para si mesmo uma imagem deturpada e idolátrica que atenda seus caprichos e vontades. A princípio, o zelo leva Deus a se indignar diante do pecado do povo e planeja abandoná-lo e recomeçar uma nova aliança através de Moisés. Todavia diante da oração de Moisés – oração que recorda a fidelidade e compaixão de Deus – a realidade muda. Deus assume uma atitude que se repetirá inúmeras vezes ao longo da história da salvação. Ele escolhe deixar que sua misericórdia e seu amor sejam derramados sobre a humanidade ao invés de lhes infligir o castigo e punição da qual se tornaram merecedores pelo pecado. O bezerro de ouro que representa uma imagem deturpada de Deus desperta o questionamento sobre as imagens que construímos e perpetuamos de Deus em nosso coração e consciência. Quem é o Deus em quem professamos fé e confiança? o Deus que Se revelou, na história da salvação e especialmente na Encarnação do seu Filho, como amor, bondade, misericórdia ou é um deus vingativo, cruel, perfeccionista e rígido?

Na segunda leitura (1Tm 1,12-17), ouvimos novamente um escrito muito pessoal do Apóstolo Paulo. Ele escreve para Timóteo, amigo e grande colaborador no ministério de Paulo. A carta possui várias motivações: a organização da comunidade; indicações de como viver a fé e combater as heresias; e orientações práticas sobre a vida cristã dos fiéis. Todavia, no trecho que meditamos hoje o Apóstolo retrata o seu ministério como sinal inegável da misericórdia de Deus. Sem mencionar a parábola do Filho Pródigo, Paulo reconhece-se como o personagem. Ele que andou por tantas terras erradas, foi acolhido por Deus que o chamou para trabalhar de volta em seus campos e cultivar a sua messe ou lavoura. Ao contemplar este encantamento que o Apóstolo possui somos convidados a tomar consciência de que o Amor de Deus é oferecido a todos, sem exceção, não importando as faltas cometidas. É este Deus misericordioso testemunhado por Paulo que também devemos conhecer e testemunhar através da vivência de um amor pleno e incondicional para com o nosso próximo.

Estamos na metade do Evangelho escrito por São Lucas (Lc.15,1-32). Por isto faz sentido que no coração do seu escrito, o evangelista comece a nos apresentar a essência do anúncio do Evangelho através das Parábolas da Misericórdia. Ao ser questionado pelos fariseus e escribas sobre a acolhida àqueles que eram considerados impuros e indignos do amor de Deus, Jesus comunica estas três parábolas que anunciam o Amor de Deus derramado sobre a humanidade pecadora.

Os fariseus e escribas, guiados pela lógica da impureza e da justificação baseada em méritos pessoais, achavam inaceitável a atitude de familiaridade com que Jesus tratava os pecadores públicos. Para eles, um homem justo jamais deveria senta-se na mesma mesa que eles (sentar-se à mesa com alguém era sinal de familiaridade, comunhão de vida e de destino). Os fariseus, imaginavam que o amor divino e sua justiça poderiam ser comprados através do cumprimento de inúmeros mandamentos. Em Lucas, compreendemos que Justiça e Misericórdia são reveladas como sinônimos na vida e na missão do Filho de Deus.

As duas primeiras parábolas, da ovelha e da moeda perdida, desejam comunicar o amor misericordioso de Deus que busca aquele que se perdeu e que explode de alegria ao reencontrá-lo. Aparentemente alguns podem apontar um certo exagero na conclusão das parábolas por se tratar de uma simples ovelha e uma mera moeda quase sem valor. Todavia, é preciso estar atento, tratam-se de imagens do ser humano perdido no pecado e a alegria de Deus que reencontra um filho que se afastou da comunhão com Ele.

Embora a terceira parábola seja conhecida como “o filho pródigo”, o centro dela não é o arrependimento do filho, mas sim a misericórdia do Pai. Imaginemos a profundidade do amor daquele pai, que dia após dia, depois do período diário de trabalho, sentava-se na varanda de casa no entardecer e enquanto contemplava o caminho no horizonte, repetia: meu filho voltará. Ele voltará. Por isto compreendemos que o coração do Pai, por continuar a amar os dois filhos apesar de serem igualmente interesseiros, ambiciosos, rebeldes e ingratos, é a imagem do amor incondicional de Deus. Assim como os pecadores públicos e os fariseus, ambos os filhos são orgulhosos, ausentes e desejam ser autossuficientes (afinal, não são estas as atitudes que nos levam a pecar? O orgulho, o afastar-se de Deus e a autossuficiência?).

O pensamento do filho pródigo que imagina que será ao menos recebido como empregado representa nosso pensamento depois do pecado. Normalmente, com o remorso e arrependimento advindos depois do pecado, nos julgamos indignos do amor divino. Mas Deus sempre nos surpreende. Como o Pai na parábola, Ele continua a amar, a esperar ansiosamente o nosso regresso, preparado para nos acolher com alegria e amor. No seu Filho Unigênito e através Dele, Deus nos ama com amor de Pai, preocupa-se conosco, vem ao nosso encontro, solidariza-Se e estabelece laços inquebráveis de familiaridade. Para aqueles que ainda hoje escolhem a atitude rancorosa dos fariseus e do filho mais velho, resta escolher: mudar o coração e aceitar que a misericórdia não é um bem adquirido por mérito, mas sim Graça derramada abundantemente em nossos corações ou continuar a sentar-se do lado fora no azedume do rancor e se autoexcluindo do amor divino enquanto escuta a alegria que ecoa do coração de Deus pelo retorno de um filho que estava perdido.

Colaborou: Diocese de Crato, CE

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