O Segundo Isaías (Is 40-55): A Esperança que Brota do Árido Chão – Parte 1 – Introdução

Por Hermes Fernandes


O Povo de Deus parece fadado ao sofrimento! É miséria, fome, guerra, sofrimentos mil! Muitas vezes somos colocados na condição de migrantes, forasteiros, exilados; mesmo em nossa própria terra. Em nosso chão. Por vezes, cantamos:


Eu venho de longe,
Eu sou do sertão.
Sou Pedro, sou Paulo, Maria e João.
Eu sou brasileiro,
Mas sou estrangeiro.
Lutei pela pátria,
Mas ganhei cativeiro.
E agora me digam se tenho direito,
Se sou cidadão,
Ou por Deus não fui feito.
Eu sou a nação,
Eu também sou irmão.
Sou Povo de Deus e não tenho porção.
Eu venho de longe,
Da seca e da dor.
Eu sou do trabalho,
Mas não tenho valor.


Na história de Israel, podemos encontrar semelhante situação. Tudo contadinho, em detalhes, na Bíblia. É isso! A Bíblia tem essa característica. Traz a história de um povo que, escolhido por Javé, fez história e conta sua história. Esse Povo viveu muitas experiências de exílio, dentro e fora da própria terra. Uma destas histórias, foi o exílio de parte da população de Judá, levada para a Babilônia nas diversas deportações que aconteceram entre os anos 597 e 582 a.E.C. Este fato histórico, o Exílio na Babilônia, é descrito no Livro do Segundo Isaías, dos capítulos 40 a 55. A narrativa traz imagens muito fortes. Faz arrepiar nossa derme, condoer nossos sentimentos. Por exemplo:


“Duas desgraças atingiram você. Quem não se compadece? Destruição e ruína, fome e guerra. Quem a consola? Seus filhos estão caídos pelas esquinas, totalmente entregues e desfalecidos, tal como a caça que cai na armadilha, cheios de furor de Javé e da ameaça do seu Deus” (Is 51,19-20)


A dor e o sofrimento marcam a história daquele grupo de exilados e exiladas na Babilônia. Mesmo em meio a tanta dor, muitos resistem. Entre estes que resistem, destacam-se os mais pobres. Estes que só têm em Deus a esperança. A partir da solidariedade entre os pobres que lutam pela vida, brota a experiência de Deus que, naquele momento, é pai e mãe. Sustento, conforto, esperança. Vejamos:


“Não tenha medo vermezinho Jacó, bichinho Israel. Eu mesmo o ajudarei – Oráculo de Javé. O seu redentor é o Santo de Israel” (Is 41,14)


“Mas pode a mãe esquecer do seu nenê, pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não esquecerei de você!” (Is 49,15)


Na experiência vivida por este povo que sentiu de maneira tão forte a presença materna-paterna de Deus ao seu lado, ajudando-o a encontrar caminhos de vida e de esperança, certamente será luz e força para nosso caminhar ainda hoje.

É sobre esta experiência de Deus, que se manifesta como Pai-Mãe dos sofredores, que se dedica o presente estudo. Iremos transcorrer por esses dias, bebendo da sabedoria e da experiência do Povo de Deus, sentida e celebrada em palavras no Livro do Segundo Isaías, ou seja, Is 40-55. Para nos ajudar, faremos uso da dinâmica e pedagogia de Shigeyuki Nakanose e Enilda de Paula Pedro [1].


Conhecendo o Livro do Profeta Isaías:

Podemos dizer que o livro atribuído a Isaías é o maior livro profético da Bíblia. São 66 capítulos. Bastante longo, né? Ao ler com atenção o texto, podemos perceber que existem situações históricas de épocas e lugares diferentes. Em verdade, somos obrigados a concluir que não se trata somente de um livro. São vários livrinhos, que passaram por muitas releituras, segundo as necessidades de grupos e comunidades, em diferentes épocas e lugares. Em comum, há experiências de pessoas esmagadas pela opressão e por muito sofrimento. Pessoas estas que resistiram à Luz da Fé e têm o desejo de construir um mundo melhor. Muitos de nós sentimos o mesmo. Também em nosso tempo o mundo disfere sobre nós a dor e o sofrimento. À luz da fé, devemos resistir. Somos Povo de Deus! Devemos ser e viver religião de resistência!


Muitos dos que se dedicam ao estudo da Bíblia, destacam – pelo menos – três livretos que são atribuídos à Isaías. Chamamo-nos de Primeiro, Segundo e Terceiro Isaías. Sobre o Primeiro Isaías, já escrevemos um pequeno estudo nesta página, que pode ser encontrado no link: www.ocaminheirodoreino.com. No estudo que estamos a desenvolver desta feita, nos dedicaremos ao Segundo Isaías.


O Livro do Segundo Isaías (40-55) é também chamado de Isaías Júnior, ou Deutero-Isaías. Neste conjunto de capítulos (40-55), retrata as condições de vida e a experiência de fé de grupos empobrecidos e escravizados durante o Exílio da Babilônia, entre os anos 550 a 540 a.E.C.


Desejamos compreender a comunidade do Segundo Isaías e, com isso, inspirar as nossas comunidades em nosso caminhar. Para isso, devemos nos aproximar das raízes da história da comunidade do profeta e entender um pouco mais da realidade do exílio, ouvindo seu grito de dor e esperança. Captar a experiência de Deus que brota no chão de sua vida, na realidade cotidiana de dor e sofrimento. Esta realidade da comunidade do Segundo Isaías também é a nossa.


No próximo texto, iremos conhecer um pouco do contexto. Faremos uma viagem ao tempo de Judá, durante o reinado de Joaquim (598-597 a.E.C), momento anterior ao Exílio da Babilônia. Iremos entender como tudo começou.

Até a próxima!


[1] NAKANOSE, Shigeyuki; PEDRO, Enilda de Paula. Como ler o o Segundo Isaías (40-55): Da semente esmagada brota a nova vida. Série “Como ler a Bíblia”. 1ª Ed. São Paulo: Paulus, 2004.

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