O Livro de Isaías – Parte 4: O Terceiro Isaías – Javé, Deus dos Pobres e Sofredores

Por Maria de Lourdes Corrêa Lima

O Terceiro Isaías (c. 56-66)

Natureza do III Isaías

O III Is é uma coleção de escritos heterogêneos, nos quais dificilmente se pode encontrar uma temática unificadora. O livro apresenta-se como uma coleção de peças, que, no entanto, receberam certa unidade ao serem colocadas no conjunto. Alguns autores veem uma ligação destes capítulos com o II Is, devido a semelhanças de linguagem e conteúdo em comum, mas a maioria distingue os c. 40 -55 e 56-66 como duas partes. As semelhanças para com o II Is se dão sobretudo nos c. 60-62. Com exceção desses, que formam um bloco, há, porém, muitas diferenças para com o II Is:

  • não mais se fala da esperança de retorno do exílio nem de Ciro;
  • fala-se do templo, que parece estar em reconstrução (Is 66,1) ou já reconstruído, faltando somente aspectos decorativos (Is 60,10; 58,12);
  • há uma preocupação com a observância do sábado (Is 58,13-14), com o modo correto de jejuar (Is 58,1-12) e de oferecer sacrifícios (Is 66,1-4), com o comportamento dos chefes (Is 56,10-11). Isto supõe uma época e um pensamento diferente daqueles do II Is.

Época de composição

Duas tendências marcam os estudos em relação à datação do III Is. Há quem o entenda como independente tanto do I como do II Is, tendo sido elaborado sob influência do II Is no pós-exílio imediato (entre 538 e 515), em Jerusalém. Outra vertente considera o III Is como proveniente do mesmo autor do II Is, de modo que ele seria um prolongamento dos c. 40-55 e teria sido redigido entre a primeira metade do século V e o início do século III. Uma variante dessa última visão considera que o III Is seria um pouco posterior ao II Is e se inspiraria, embora só parcialmente, neste. Os autores poderiam ser “discípulos” (em sentido amplo) do II Is.

Vários elementos falam em favor da época pós-exílica, sem que se possa precisar, contudo, o tempo exato. Em Is 63,7-64,11 reflete-se sobre a história de Israel e se passa, a seguir, a uma confissão dos pecados e ao pedido de que Deus tenha misericórdia do seu povo. Aqui o país ainda aparece destruído (Is 63,18; 64,9-10). Os capítulos 60 e 62 apresentam a Jerusalém gloriosa, mas esta é reservada ao futuro. A cidade atual aparece ainda destruída (Is 58,12; 60,10; 61,4), semelhante à descrição que ocorre no livro de Neemias (Ne 1,3; 2,13-15.17). Estes textos poderiam, portanto, ser anteriores a 445, época da primeira missão de Neemias.

Outros textos que se referem a situações que parecem ser anteriores à reforma de Esdras e Neemias são: Is 58,13-14 (observância do sábado); Is 58,1-12 (como jejuar); Is 66,1-4 (como oferecer sacrifícios); Is 56,10-11 (a conduta dos chefes do povo). Por fim, Is 57,1-13 fala contra a idolatria de modo semelhante ao dos profetas pré-exílicos; no entanto, não se pode excluir que em época pós-exílica tenha havido tais desvios.

O profeta

Não há nenhum dado que permita traçar a identidade do profeta que estaria por trás destes capítulos. Só em 61,1-2 fala-se dele, mas sem oferecer dados sobre sua pessoa; menciona-se sua missão, em estilo semelhante ao dos cantos do Servo (fala-se em 1ª pessoa e aparecem as características de sua missão; Is 49,1; 50,4). É alguém consagrado, destinado anunciar a salvação, descrita como um grande ano jubilar (Lv 25,10). Textos como Lv 26 e Dn 9,11.24 indicam que em época tardia desenvolveu-se a expectativa de um grande e definitivo jubileu, em que todos os pecados seriam redimidos e a paz e a prosperidade seriam definitivamente instauradas. Talvez esta mesma expectativa esteja por trás de Is 61,2, com a esperança de uma salvação ainda ligada a este mundo (mudanças materiais), mas também a de uma renovação da relação salvífica com Deus (Is 61,6a.8-9).

Organização do conteúdo

Há diferentes modos de compreender a organização do III Is.

Alguns autores distinguem, a partir de temas predominantes, duas grandes partes: até Is 63,6, aparecem as temáticas direito-justiça e salvação-justiça (Is 56,1; 58,2; 59,9.14; 60,1-63,6); a partir de Is 63,7, é frequente a metáfora e comparação pai-mãe (Is 63,16; 64,7; 66,13) para Deus, num contexto de prece de súplica (Is 63,16; 64,7), que se conclui com uma pergunta (Is 64,11), à qual Deus responde (Is 65,1-66,24).

O trecho final (Is 66,18-24) trata do tema dos povos estrangeiros, retomando a ideia da universalidade salvífica de 56,1-8, que abrira o conjunto. Além disso, a menção de “todos os povos” (Is 66,18) remete a Is 2,2, formando assim uma moldura para o livro de Isaías como um todo.

É possível também compreender a organização do III Is a partir de outras temáticas nele desenvolvidas:

  • 56-59: apresentam denúncias de infidelidade do povo ou de grupos; há esperanças de futuro. Os problemas são mais concretos;
  • 60-62: o tom é sobretudo de promessas e esperança. Aguarda-se a restauração do povo, iluminado pela glória do Senhor. Os deportados voltarão e Jerusalém terá um futuro maravilhoso;
  • 63-66: apresentam denúncias e esperanças, como os c. 56-59; porém, os pecados são aqui menos concretizados e a preocupação é sobretudo teológica.

Principais pontos de teologia

a) Deus é fiel

O ponto central da mensagem do III Is é a questão da demora no cumprimento das promessas divinas de restauração, que se entende a partir da difícil situação do povo no pós-exílio. Como as promessas do II Is não se realizaram plenamente nem pareciam realizáveis, mesmo após o retorno, e como se mostrava difícil a reconstrução do templo e de Jerusalém e o restabelecimento da normalidade da vida pública, surgem, nesta época, sentimentos de desilusão e desencorajamento (Is 58,3; 59,9.11; 63,15-19; 64,5-11). Estaria o Senhor sendo infiel a suas promessas (Is 59,1)? A resposta do profeta é o encorajamento motivado pela fidelidade de Deus na história: Deus fez uma aliança e permanecerá fiel à sua palavra (Is 59,21; 63,7-9; 66,5). É neste contexto que podem ser compreendidas as grandes expectativas de futuro referentes a Jerusalém (Is 60-62; 65,16-25; 66,10-14), esperanças que se baseiam na ação do Senhor (Is 60,1.19-22; 62,11-12). Deus é Pai (Is 63,8.16; 64,7) e, como já fez no passado, intervirá para libertar o seu povo (Is 63,9; 64,2-3).

b) A comunidade renovada

Deus criará uma nova comunidade, com centro em Jerusalém e no sacerdócio (Is 65,18-20; 66,6.10-14.20-21). A salvação é prometida aos pobres (Is 61,1), os que não confiam em si mesmos, mas sim unicamente em Deus (Is 57,14-19; 61,1-3; 65,13-16; 66,2.5).

c) Universalismo com centro em Jerusalém

A salvação é endereçada também aos estrangeiros, que terão Jerusalém como ponto de convergência. Tal perspectiva encontra-se em Is 56,3-7 e 66,18b-21, ou seja, na abertura e na conclusão do livro. Ser-lhes-á permitido participar do próprio culto (Is 56,6-7).

O universalismo do III Is inclui ainda categorias de pessoas. Ao povo eleito pertencerão também aqueles que antes tinham sido excluídos pela Lei (Dt 23,2-5), sob a condição de aceitarem e viverem a aliança (Is 56,3-5). Mesmo o sacerdócio não será mais exclusivamente ligado à tribo de Levi (Is 66,21). Não é claro se os estrangeiros que participarão do sacerdócio são os judeus da diáspora, que retornarão a Jerusalém (Is 66,20-21), ou se são propriamente não israelitas. Certo é que o aspecto essencial será o relacionamento pessoal com Deus, mesmo se são indicadas algumas prescrições exteriores (Is 56,2.6-7; 58,13-14). Ao mesmo tempo, há no livro textos que mencionam a submissão dos estrangeiros ao povo judeu (Is 60,10-16; 61,5), com reserva do sacerdócio a este último (Is 61,6).

d) O povo deve-se converter

A causa do não cumprimento das promessas do II Is reside nos pecados do povo: no âmbito moral-social (Is 58,3b-12; 59,3-15; 56,10-57,1) e religioso (Is 58,13-14; 57,3-13; 65,2-7; 66,3-4). Os próprios textos que falam da idolatria (Is 57,3-13; 65,2-5.11) mostram que a responsabilidade pelas dificuldades recai em Israel, não no Senhor. O livro desenvolve uma dura crítica aos pecados das autoridades e de certos grupos (Is 56,9-57,2), especialmente dos dirigentes (Is 56,10-11). Fala também contra a idolatria, que parece incluir sacrifícios humanos (Is 57,3-13; 65,1-7). Reprova igualmente os sacrifícios (Is 66,1-4) e as práticas litúrgicas (o jejum, o sábado e a justiça: Is 58) negligenciadas ou realizadas sem a correspondente ética.

Deus é transcendente (Is 57,15; 63,15), mas é pronto ao perdão. O profeta, por isso, convida o povo à conversão (Is 57,14) e à confissão das próprias culpas (Is 59,12-20; 63,7-64,11).

Formação do livro de Isaías em seu conjunto

Há numerosas repetições de termos, expressões, temáticas, que perpassam as três grandes partes do livro de Isaías e dão ao conjunto uma unidade, de modo que o livro enquanto tal se apresenta como um todo coerente. Sobressai aqui a designação de Deus como “o Santo (de Israel)” (35 vezes no livro como um todo), além da correspondência entre certas passagens (Is 5,1-7 apresenta muitas semelhanças com 27,2-6; 11,6a.7b.9 é retomado em 65,25).

A composição final do livro deve ter ocorrido antes do século III aC. De fato, o texto de Sir (Eclo) 48,22-25 (início do século II) refere-se ao livro tocando temas de suas três partes; além disso, a tradução grega da LXX (de meados do século II a meados do século I aC) conheceu o livro com todos os seus capítulos, na forma que temos hoje.

A mensagem do grande Isaías do século VIII deve ter marcado círculos de cultores das tradições proféticas, de modo que ao núcleo mais antigo do livro foram sendo paulatinamente acrescentados outros textos e remodeladas passagens mais antigas. Não é possível identificar com segurança os momentos redacionais, que devem ter ocorrido desde a época pré-exílica até o período persa, passando pelo período neobabilônico. Atualmente, aceita-se cada vez mais que a segunda e terceira partes do livro não foram redigidas independentemente da primeira parte (c. 1-39).

Lendo o texto hoje

O Deus santo exige direito e justiça em todas as realidades humanas: no agir individual, nas estruturas sociais, na prática política, no culto. Fundamental é a atitude de conversão, que implica fé e adequação do agir à ordem divina. Deus tem o domínio sobre a vida humana no plano pessoal, social, nacional e internacional, e, a seu tempo, realizará seu plano. Ele, o Deus único, é o senhor da história, capaz de reconduzir os deportados à sua terra, criando para eles nova esperança. E para formar uma comunidade humana renovada, sem excluir ninguém que se abra à sua ação. As expectativas do rei justo e sábio, instrumento da salvação divina, se cumpriram em Jesus Cristo, o Filho de Davi que inaugurou seu Reino entre nós (cf. Mc 11,10).

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Colaborou: www.teologialatinoamericana.com

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