Catequese e Liturgia – Parte 31: Comungar de Joelhos

Não é raro encontrar por aí gente muito jovem, mas com costumes religiosos antigos e ultrapassados. São gestos e sinais de piedade que ficaram esquecidos no passado por um tempo e que retornam às comunidades eclesiais com ar de seriedade cristã. Tais práticas caracterizam um modismo conservador que conquistou a simpatia de alguns que parecem mais católicos que o papa. Dentre essas práticas, destaca-se o estranho gesto de comungar de joelhos.

É bem verdade que as legislações internas da Igreja permitem ao cristão comungar como bem deseja: de pé, ajoelhado, assentado e até deitado (caso ele esteja doente, é claro), podendo a comunhão ser dada na mão ou na boca… Mas um pouco de bom senso e de teologia não fazem mal a ninguém.

Outro dia, escutei da boca de um jovem que ele só comunga ajoelhado. Ao ser interrogado acerca dos motivos que o levam a tal prática, respondeu prontamente que era por devoção à santa eucaristia. Ora, mas será a eucaristia objeto de devoção? Que teologia sustenta essa prática? Que compreensão de eucaristia têm aqueles que assim o fazem? Certamente não é a compreensão que advém dos relatos da instituição da eucaristia presentes nos Evangelhos ou dos relatos de fração do pão presentes em Atos ou nas Cartas Paulinas.

Nos relatos das Escrituras, a eucaristia é uma refeição. Nessa refeição, Jesus se deu nos sinais do pão e do vinho. Deixou-nos esse sacramento para que a gente fizesse memória de sua vida doada, partida, entregue em favor dos seus, por amor e fidelidade.  É sua vida toda que é retomada toda vez que a eucaristia é celebrada. É o mistério de sua encarnação, morte e ressurreição que nós recordamos e repetimos quando nos reunimos em torno de sua mesa. Desvincular a eucaristia da mesa, transformando o altar num lugar de sacrifício expiatório em vez de refeição, é tirá-la de seu contexto original. É tirar o foco da presença eucarística de Jesus junto de nós e colocá-la num pedaço de pão e num bocado de vinho.

Quando a gente desloca a presença do Ressuscitado da comunidade eclesial que celebra e a põe nas espécies eucarísticas, esquecendo que o que foi celebrado é um sacramento – ou seja, um mistério que não cabe em partículas apenas –,  passamos a adorar a hóstia num realismo eucarístico que já foi combatido muito tempo na Igreja. Repetimos erros antigos, retomamos práticas piedosas de outrora, passamos a viver de uma quimera e não de fé verdadeira. Isso pode ser bem perigoso e tem consequências funestas na pastoral.

Assim, comungar de joelhos não é uma prática religiosa sem consequências. Não é um ato de devoção bonitinho que mostra respeito e piedade. Não é um costume ingênuo sem maiores consequências. É um gesto conservador, que mostra uma compreensão teológica equivocada de eucaristia, uma compreensão perigosa do ministério presbiteral, cujas mãos poderosas podem consagrar, e uma compreensão eclesial bastante distorcida e perigosa.

Assim, não podemos simplesmente ver os jovens aprendendo essas práticas e ficar calados. É tarefa dos teólogos e presbíteros orientar e formar o povo. Se, numa comunidade, esse hábito começa a aparecer, melhor orientar logo toda a gente com paciência e respeito àqueles que assim o fazem, é claro! Primeiramente, a pessoa deve ser orientada em particular. Com um pouco de caridade e empatia, um diálogo pode ser iniciado. Mas não só em particular devemos falar sobre isso. Também em público isso deve ser conversado na comunidade cristã, certamente com muito mais caridade e leveza ainda, para não ofender nem magoar os corações singelos.

Aos leigos, aconselho que questionem as práticas antes de aderirem a elas. Aos presbíteros, aconselho zelo pastoral e ousadia corajosa, como disse o papa Francisco. Ficar com medo de tocar nesses assuntos e fazer de conta que a gente não está vendo, não parece a melhor opção. É preciso falar sobre essas coisas e dar formação teológica para nossa gente. Fica aí a dica!

Solange Maria do Carmo
Colaborou: www.fiquefirme.com.br

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