Estudos sobre o Evangelho de Mateus – Parte 28: Quem é Jesus? Pelo Fruto se conhece a Árvore – Mt 12,22-45

Por Hermes Fernandes

Nosso estudo de hoje refere-se ao Evangelho de Mateus 12,22-45. Aqui veremos alguns temas importantes para nossas comunidades:

  1. Sobre demônios e dominações;
  2. Que Reino algum pode se dividir e subsistir;
  3. Que o único pecado que não pode ser perdoado é o contra o Espírito Santo;
  4. Sobre conhecer as árvores por seus frutos;
  5. Sobre o Sinal de Jonas.

O texto de hoje se inicia com a informação de que levaram a Jesus um endemoninhado cego e mudo. Jesus o curou. (v. 22). O sistema legalista tem o poder demoníaco de impedir as pessoas de ver e de falar. Ao expulsar o demônio, Jesus cura a pessoa dos seus efeitos, como o fez com o homem com a mão seca (Mt 12,13). O novo Povo de Deus está livre da opressão da Lei, que cega e produz um legalismo exclusivista que impede a comunicação com os outros.

“E todas as multidões ficaram admiradas e perguntavam-se ‘será que ele não é o filho de Davi?'” (v. 23). Por trás da pergunta estão as diversas expectativas sobre o messias que existiam na Palestina. As multidões que esperavam ser libertas da opressão de seus dirigentes, reconhecem na prática de Jesus o Messias esperado.

Este reconhecimento das multidões representa um perigo para aqueles que vivem às custas de sua opressão. Eles começam a difamar Jesus, dizendo que é por Belzebu que ele age (v. 24). Jesus aponta que a divisão é causa de ruína de qualquer poder. Satanás, símbolo do poder, não pode libertar o homem da ambição pelo poder. Mas Jesus, o Messias, não se deixa atingir por esse mal (Mt 4,1-11). Ele é livre e por isso mesmo pode libertar o homem dessa escravidão. Em Cristo, as temíveis forças do mal e da morte podem ser vencidas. Libertando as pessoas de todo tipo de demônio, isto é, da submissão fatalista às forças da injustiça, do ódio, da opressão; Jesus demostra ser o Redentor do mundo (Is 41,14). O povo agora está livre para combater, porque suas mãos estão livres das amarras do medo que paralisa a ação humana diante de seus desafios. Os demônios, segundo os Evangelhos, são todas as forças que impedem o homem e a mulher de viver dignamente a vida plena, sonhada pelo Criador, o amado Pai. Pai nosso e de Jesus.

Jesus não pretende substituir os dominadores, mas expulsá-los da casa, isto é, da vida do povo (v. 26). Por isso, não é o messias glorioso, conforme alguns esperavam. Um messias que libertaria o povo da ocupação romana, mas se manteria entronado, a julgar sobre o povo. Uma segunda opressão. Jesus não é rei, conforme a mentalidade da sociedade de seu tempo. Ele denuncia o agir da elite que está dispersando o povo em vez e unir, face a tanto sofrimento. Neste sentido, ao presenciar os sinais de Jesus, chamam a opressão de bem e a libertação de mal (v. 27-28). Agem de má fé. A isto podemos entender como blasfêmia, pecado contra o Espírito Santo (v. 31). A blasfêmia contra o Espírito Santo consiste em atribuir ao demônio a ação libertadora de Jesus – negar a força de Deus em Jesus, ou a ação do Espírito na luta contra o mal presente na vida das pessoas. Ora, enganar-se a respeito da divindade de Jesus, oculta sob a humilde aparência do Filho do Homem, pode ter perdão. Mas fechar os olhos e o coração para a ação do Espírito é imperdoável, porque significa excluir-se da ação salvífica de Deus, em Cristo. Esse pecado não tem perdão (v. 32).

Os frutos vão definindo, pouco a pouco, quem é joio e quem é trigo (v. 34).

Mais à frente no relato mateano, sobre o qual nos debruçamos em estudo hoje, aparecem novos personagens para ajudar os derrotados Fariseus. São os Doutores, isto é, mestres da Lei (v. 38-45). Eles pedem um sinal a Jesus que o confirme como enviado de Deus. Vamos nos ater amiúde nestes versículos próximos.

Os Mestres da Lei e Fariseus pedem a Jesus um sinal (v. 38). Por que não tinham fé? Por que precisavam corroborar suas dúvidas, ou certezas? Não. Trata-se de uma afronta. Um confronto. Sabemos que os Mestres e os Fariseus estavam revestidos da autoridade do Templo. O que solicitam de Jesus é uma prova que legitime seu magistério. O que foi dito a Jesus pode ser reproduzido de forma mais popular, como ouvimos a muitos dizer: “quem você pensa que é?” Entendamos: o que estava em jogo não eram motivos de crer ou não, e sim, luta pelo poder. Os Fariseus e Mestres da Lei não querem motivos para acreditar em Jesus e, sim, buscam uma forma de desacreditá-lo. Pedem um prodígio. Um milagre, como sinal de sua messianidade.

Bem o sabemos que Jesus não era um exibicionista. Seus sinais e milagres eram uma forma de reintegrar os excluídos, os pobres. Também gostaríamos de lembrar ao leitor que a teologia do Templo marginalizava os doentes, afirmando que as doenças e deficiências físicas eram uma forma de castigo pelos pecados. Por isso Jesus curava os doentes. Como parte do Projeto do Reino de Deus. De reintegração, inclusão, libertação de toda forma de opressão.

Neste sentido, quando os Fariseus e Mestres da Lei colocam Jesus à prova, exigindo que comprove sua autoridade; esquecem-se do que, de fato, consiste o sonho de Javé, enviando seu Filho. O Mistério da Salvação, a libertação do homem e da mulher diante das grandes injustiças teológicas e sociais existentes. É neste pensamento que devemos entender a fala de Jesus quando diz que o único sinal que terão é o de Jonas. O pregador relutante pela conversão de Nínive passa três dias no ventre do grande peixe (cf. Jn 2,1-11). Uma alusão à condição de morte. Ao ser libertado dessa “quase morte”, anuncia a mensagem de Javé e converte todo um povo, a cidade de Nínive. O convite à conversão feito por Jonas, liberta aquele povo da consequência de seus pecados. O coração de Deus se abranda e desiste de castigar Nínive. Mesmo sabendo que o Livro de Jonas é uma metáfora, podemos aproveitar a mensagem. Aqueles que atendem ao anúncio da Palavra, mudam sua mentalidade e vida, reconstroem sua história. Jonas anunciou o chamado à conversão. Jesus anuncia a Boa Nova.

É no Mistério Pascal de Jesus que deve se centralizar nossa fé. Já o Primeiro Testamento nos anuncia que este é nosso caminho. O Cântico do Servo Sofredor, em Isaías, nos ensina que nosso Deus é parceiro dos sofredores (cf. Is  42,1-7; 49,1-9; 50,4-9; 52, 13-53,12). Esperança dos oprimidos. Para uma libertação definitiva, Jesus veio até nós. Sinaliza a esperança eterna. Além de sua mensagem de paz e de uma comunidade humana fraterna e justa, seu sacrifício Pascal nos liberta de toda forma de prostração humana. Quando Jesus faz alusão ao sinal de Jonas é um anuncio de sua morte e, consequentemente, sua Ressurreição.

As primeiras comunidades cristãs compreendem a morte de Jesus na linha da tradição do martírio dos profetas. Compreendem-na diretamente articulada com a morte dos profetas (cf. Lc 11,49-51; 13,14; 1Ts 2,14; At 7,51ss). Ao mesmo tempo, por estarem sendo perseguidas, as comunidades se compreendem no seguimento de Jesus. Esta era uma interpretação do Sacrifício Pascal em proximidade com a martiria profética.

Há muitos textos do Segundo Testamento que apontam para o sentido da morte de Jesus na linha da expiação dos pecados e do sacrifício para a salvação do gênero humano. Essa interpretação acabou influenciando os relatos da Última Ceia (cf. Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Jo 6,51-58; 1Cor 11,23-26). Jesus é visto como o Justo, o Inocente, que com sua morte estabelece uma nova relação entre o ser humano e Deus. Sua morte é vista como redentora, expiatória, sacrifical. Alcança o perdão dos pecados e inaugura uma nova e definitiva aliança de Deus com seu povo.

Outros textos do Segundo Testamento apontam na direção da morte de Jesus como um ato de solidariedade e criador de solidariedade. Sua morte, livre e solidária, é apontada como dom de si (cf. Jo 3,16; 12,49-50), como dom de amor (cf. Jo 10,11-15; 15,13), como dom gratuito (cf. 1Jo 3,16). Como acontecimento gerador de solidariedade, a morte de Jesus, a partir desta interpretação, exige o seguimento. Ela nos liberta da Lei e mostra que estamos livres para amar. Liberta-nos da falsa imagem do Deus do terror paralisante e torna-nos corresponsáveis pela implantação da justiça no mundo. O Espírito do Ressuscitado nos é dado para podermos refazer, na história, o caminho de Jesus.

Por fim, gostaríamos de dizer que o texto de Mateus, proposto neste estudo, nos propõe um aprofundamento no sentido da morte de Jesus, em todas as abordagem elencadas acima. É preciso compreender sua relação com nossa redenção e o inaugurar de uma nova realidade. Enquanto os Fariseus e Mestres da Lei queriam uma prova da autoridade de Jesus, ele apresenta – de forma análoga – qual o Projeto de Deus se realiza nele. Ao contrário daqueles que defendem uma teologia do Deus-poder, Deus do fantástico; Jesus propõe a imagem de seu Ábba, seu Paizinho. Pai da Misericórdia. Este Pai não se revela no fantástico. É sinal transformador do cotidiano, libertando os homens e mulheres de suas opressões. O sinal, proposto por Jesus é o da transformação integral do homem e da mulher, fazendo de suas vidas, testemunho real do Mistério. O Reino de Deus está no meio de nós!

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