Estudos sobre o Evangelho de Mateus – Parte 27: “Ele anunciará o Direito às Nações!” – Mt 12,15-21

Por Hermes Fernandes

O texto sobre o qual nos debruçaremos em estudo hoje é Mt 12,15-21. Jesus percebe as conspirações das elites judaicas para matá-lo. Por isso, vai embora (Mt 12,15). As multidões o seguem e, assim, Ele continua ajudando a todos. Todavia, proíbe que sua atividade seja divulgada por aclamação. Podemos atribuir a isso o desejo de não promover mais os celeumas dos Fariseus, provocando um desmerecimento de seus gestos de misericórdia. Não quer que seus sinais se tornem espetáculos exibicionistas (cf. Jo 6,26).

Por isso, a narrativa mateana aplica-se em reproduzir o texto profético que é um verdadeiro hino à ação humilde e despretensiosa de Javé, personificada na pessoa de seu Servo. Aqui o evangelista transcreve o “Primeiro Cântico do Servo”. Esta transcrição também servirá de contraste para a próxima controvérsia que há de seguir ao relato de Mt 12,15-21. O texto profético de Isaías, exalta a salvação destinada a todos os povos e prefigura a imagem do messias da não violência, revolucionário da paz. Marcando, assim, a real identificação do Messias do Reino de Deus e não o triunfalista, muitas vezes anunciado e esperado. A glória e o poder “deste mundo” só podem ser conquistados/as pela riqueza e pela violência. O Messias Jesus antagoniza esses paradigmas. E Mateus deixa bem claro este paradoxo na perícope evangélica sob a qual nos debruçamos agora.

O texto de Isaías, conforme é aplicado por Mateus, apresenta uma visão cristológica do Primeiro Testamento, que ultrapassa o momento histórico em que está inserida. Resultado de uma reflexão teológica madura da comunidade de Mateus. É mais do que uma narrativa de acontecimentos. Apresenta o Jesus histórico que revela sua messianidade, personificando Javé, Deus dos Pobres e Sofredores, do qual, se fez a realização da profecia. Neste comportamento de Jesus transparece a atitude do Servo anunciado pelo Profeta Isaías (cf, Is 42,1-4), não por causa do seu sofrimento, mas por sua atitude humilde e simples, cheia de humanidade para com aqueles e aquelas que estão pisoteados pela história. Os sofredores, vítimas do sistema opressor.

“Eis aqui o Servo, que escolhi;
o meu amado, no qual minha alma se compraz.
Colocarei sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará o Direito às Nações.
Não discutirá, nem gritará, e ninguém ouvirá sua voz nas praças.
Não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que ainda fumega,
até que leve o julgamento à vitória.
E em seu nome as nações depositarão a sua esperança.”
(Mt 12,18-21)

Jesus não é um Messias triunfalista como muitos esperavam. Ele é o Servo, o Filho muito Amado, cuja missão vai além do povo de Israel. Pela força do Espírito, Ele e seus seguidores devem anunciar o Direito às Nações, não pelas forças das armas, mas pela prática das bem-aventuranças. Sua justiça se implanta restituindo a vida onde ela está esmagada.

As comunidades de Jesus hoje devem fazer em seu caminhar histórico a mesma leitura que a comunidade mateana fez do messias esperado. Não são poucos os que fazem apologia às pedagogias do ódio e da violência. Há pouco tempo, vimos elogios aos fuzis, em preterimento à necessidade do povo de Deus pelo pão de cada dia. O canhão sendo defendido pelos governantes mais do que o feijão. Precisamos sublinhar em nossa pregação e testemunho que todo aquele que sustenta sua mensagem na violência e no discurso de ódio, antagoniza com o Evangelho. Não está a serviço de Deus e de seu Filho Jesus. Este, o messias dos pobres, é o Príncipe da paz e da fraternidade, valorizando a vida de tudo e todos. Quem ama ao Pai e se confessa seguidor e seguidora de Jesus, não recorre às armas em quaisquer circunstâncias que sejam, ou- sequer – as defende. O Povo de Deus quer feijão e não canhão!

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