“Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres” | Reflexão sobre Mt 19,16-22

Por Hermes Fernandes

Nesta Segunda-feira da 20ª Semana do Tempo Comum, a Liturgia nos oferece a leitura do Evangelho de Mateus 19,16-22.

Este texto evangélico é um dos mais instigantes para nossa vida cristã. Podemos encontrar seus paralelos nos sinóticos Mc 10,17-31 e Lc 18,18-30. O relato de Mateus se inicia tratando o personagem como “alguém” (v. 16). Depois, refere-se a um “jovem” (v. 20). Por fim, defini-o como “rico” (v. 22). É possível que essa gradação na narrativa seja intencional, pois a pergunta feita a Jesus pode ser feita por qualquer um. A gradação acentua a jovialidade do interlocutor de Jesus e sua recusa em assumir o conselho de abraçar a radicalidade evangélica. Os termos usados no original neaniskos e téleikos podem significar a idade jovem ou a imaturidade de uma pessoa. Alguém que ainda não esteja pronto para dar um passo definitivo pelo Evangelho. O “se queres ser perfeito” (v. 21) é uma provocação que deixaria temeroso até o mais engajado no projeto de Jesus.

O jovem, personagem do relato evangélico, está em busca de uma religiosidade fecunda. Ele busca a vida eterna. Todavia, quando Jesus lhe oferece um caminho de compromisso, fazendo de sua espiritualidade um testemunho concreto, perde a convicção. Ele conhecia a Lei. Tanto o é que compreende os imperativos de Dt 5,32-33. Em resposta, disse ao Messias: “Tenho observado todas essas coisas. Que ainda me falta?” (Mt 19,20). Jesus, vendo mais possibilidades naquele que o interpelava, não lhe propõe o cumprimento do Lei, mas o seguimento. Um seguimento pessoal, o discipulado; conforme agiam os doze que acompanhavam-no no anúncio da Boa Nova. Quem sabe, não surgisse nesse relato, um décimo terceiro discípulo? Foi a vida que Jesus propôs ao jovem rico em Mt 19,21. Abraçar o anúncio evangélico, em igual condição aos outros que seguiam o Messias Galileu. Frustrando a expectativa de Jesus, o jovem vai embora triste, pois tinha muitos bens (v. 22).

Jesus popôs a esse jovem o caminho da Bem-aventurança. Podemos certificar isso quando disse: “se queres ser perfeito” (v. 21). Esta vida plena em sua radicalidade, incute em si um compromisso com a pobreza evangélica. Não se trata aqui de ser pobre, somente. Sempre tivemos pobres em nosso meio e, nem sempre, estes experimentaram uma vida de perfeição, sob a ótica evangélica. Não se trata de tornar-se pobre, simplesmente. É mais: é comprometer-se com os pobres. Será que algum rico teria hoje a coragem de se unir aos pobres e aplicar suas riquezas na luta contra a injustiça que a tantos empobrece? Este é o desafio que, antes feito ao personagem do Evangelho de hoje, nos é feito agora. Queremos ser perfeitos aos olhos do Reino de Deus? Se nossa resposta for afirmativa, as palavras antes ditas ao interlocutor de Jesus, na perícope evangélica de hoje, também se dirigem a cada um de nós. Ele nos olha, com seu olhar profundo e – sorrindo – diz: “vem, seja perfeito, venda tudo que tem, dê aos pobres e siga-me”.

Há como interpretar esse convite de Jesus de forma atualizada? Sim, é possível. Talvez não seja preciso vender tudo e dar aos pobres. É possível que não precisemos abraçar uma vida errante, mendicante; para encontrar a perfeição do Reino de Deus. Até porque, na Idade Média, muitas heresias nasceram do orgulho de ser pobre. Fato é que esse vender tudo e dar aos pobres pode ter um significado mistagógico. Significar o compromisso com os empobrecidos, revestido da necessária radicalidade. Entender que nada mais importa, exceto o Reino de Deus e sua Justiça (Mt 6,33). Este compromisso animou muitos de nossos santos e santas, mártires e confessores; canonizados ou não. Homens e mulheres que colocaram o amor aos sofredores acima de toda e qualquer coisa. Mesmo que vivessem uma vida abastada, estas riquezas não os impediam de seguir a Jesus, e seus bens sempre eram postos ao serviço da caridade, justiça e paz. Neste sentido, ser pobre não significa um dado estatístico-econômico, mas uma condição diante do projeto do Reino de Deus. Quando alguém que possui seus bens, e coloca os homens e mulheres sofredores/as acima do seu desejo de conforto e lucro, este está no caminho de perfeição. Para uma vida bem-aventurada, é preciso um coração de pobre! (cf. Mt 5,3). Pensemos nisso.

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