Reflexão para o 20º Domingo do Tempo Comum | Pe. Francisco Cornélio Rodrigues

Neste vigésimo domingo do tempo comum, a liturgia prossegue com a leitura sequenciada do Evangelho de Lucas. O texto empregado neste dia – Lc 12,49-53 – é a continuação imediata daquele lido no domingo (Lc 12,32-48) e, obviamente, ainda pertence à longa seção narrativa do caminho de Jesus com seus discípulos em direção à cidade de Jerusalém. Como tem sido explicado nos últimos domingos, esse caminho não é apenas um percurso físico, mas um itinerário catequético, um programa formativo no qual Jesus anuncia os principais elementos da sua mensagem e indica as exigências básicas para o seu discipulado de todos os tempos. O trecho lido hoje é curto, mas muito provocativo e interpelante, pois contém algumas das declarações mais desconcertantes de Jesus e possui características apocalípticas e escatológicas. Aliás, no texto do domingo passado já era bastante evidente a dimensão escatológica, chegando a ser surpreendente, uma vez que se trata de um gênero literário mais empregado nas partes conclusivas dos evangelhos.

Ainda a propósito do caminho para Jerusalém, é importante recordar que Lucas é o evangelista que atribui mais importância a essa etapa da vida de Jesus, visando responder às necessidades e exigências da sua comunidade, que passava por um momento de crise, com fortes tendências ao desânimo e ao comodismo. O texto de hoje é composto de uma série de declarações de Jesus sobre a sua própria missão, recordadas por Lucas com a finalidade de despertar a sua comunidade. É uma passagem na qual somente Jesus fala, fazendo uso de imagens fortes e interpelantes. Os interlocutores são os discípulos, mas é provável que havia mais gente escutando, pois esse ensinamento ainda é a continuidade da resposta de Jesus a um homem desconhecido que lhe pediu ajuda na divisão de uma herança, o que Jesus se negou a fazer. Uma parte do texto é exclusiva de Lucas (vv. 49-50), e outra parte aparece também em Mateus (Mt 10,34-35), embora com algumas diferenças.

Uma vez feita a contextualização, olhemos então para o texto. Eis o que diz o primeiro versículo: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (v. 49). Como se vê, temos uma declaração bastante impactante. Com a expressão “eu vim”, Jesus expressa a sua messianidade e a condição de enviado de Deus, o Pai. E quer dizer que ele veio ao mundo com uma missão e um propósito bem definidos. E se trata de uma missão surpreendente: “lançar fogo sobre a terra”. A palavra fogo (em grego: πῦρ – pyr) é muito comum na Bíblia – aparece 378 vezes no Antigo Testamento e 71 vezes no Novo – e possui grande diversidade de significados, de modo que é difícil atribuir-lhe um sentido de imediato. Em algumas ocasiões o fogo é imagem da Palavra de Deus (Jr 5,14; Eclo 48,1), outras vezes é símbolo da própria presença de Deus (Ex 3,2-3; 13,21-22). Neste contexto específico, certamente, o fogo é imagem do Espírito Santo (At 2) e do Evangelho; ambos devem contagiar o mundo, com a força transformadora que possuem. O resultado do Espírito Santo e o Evangelho contagiando o mundo é a instauração do Reino de Deus. Por isso, Jesus tem pressa para que isto aconteça: como gostaria que já estivesse aceso!”. Ao recordar estas palavras, Lucas pretende tirar sua comunidade do comodismo e comprometê-la na missão, continuando o projeto de libertador de Jesus.

Jesus sabia que o fogo que veio lançar sobre a terra custaria a sua própria vida. É isso o que indica a declaração seguinte: “Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que se cumpra!” (v. 50). Aqui, o batismo significa a sua paixão, morte e ressurreição. Somente depois destes acontecimentos é que o Espírito Santo foi enviado e a comunidade se sentiu encorajada para o anúncio do Evangelho até os confins da terra (cf. At 1,8). Jesus se sentia angustiado diante de um mundo tão injusto e violento. Por isso, tinha pressa na instauração do Reino de Deus, que consiste na construção de um mundo novo, já na terra, com justiça igualdade e fraternidade. De fato, ao invés de “ansioso”, o termo correto seria “angustiado” (em grego: συνέχομαι – synekomai)Ora, é claro que Jesus não estava ansioso para morrer, mas sim angustiado porque a sua fidelidade ao projeto do Pai lhe custaria a vida. Ele veio ao mundo revelar o amor e a misericórdia de Deus, com o propósito de instaurar o Reino. O mundo, contudo, a começar pelo sistema religioso vigente, rejeitou esse amor, e sua morte na cruz foi a principal prova desta rejeição. Além da rejeição das classes dirigentes – autoridades políticas e religiosas da época – também contribuía para a angústia de Jesus a incompreensão dos seus discípulos, que continuavam alimentando pretensões triunfalistas. Na verdade, a incompreensão e falta de engajamento dos discípulos era o principal entrave para o advento do Reino, como foi na época do evangelista Lucas e continua sendo hoje.

A sequência das declarações de Jesus no evangelho de hoje são ainda mais surpreendentes, sobretudo esta: “Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão!” (v. 51). Ora, além de surpreendente essa afirmação parece também contraditória, considerando que desde o seu nascimento, Jesus foi apresentado como aquele que veio instaurar a paz definitiva no mundo (cf. Lc 1,79; 2,14). Durante o seu ministério, até aqui, ele tinha desejado paz às pessoas que tinha curado (cf. Lc 7,50; 8,48; 10,5). Na verdade, aqui ele se refere à falsa paz imposta pelo império romano, chamada de “pax romana” ou “pax augusti”, que não passava de uma política de controle e repressão. Em nome da ordem social, eram proibidas todas as formas de manifestação e protesto. Todos eram obrigados a aceitar as determinações do império em nome da ordem e dos bons costumes, com a conivência da religião. É claro que Jesus não aceitou isso, o que é atestado pela morte de cruz. Na verdade, a cruz era a pena para os que perturbadores da paz imperial, na época. Ora, aceitar esse tipo de paz era ser conivente com a injustiça, com as desigualdades, sendo que Jesus veio exatamente para contestar a ordem vigente e propor um novo modelo de sociedade e de mundo, que corresponde ao Reino de Deus.

A divisão que Jesus veio trazer já tinha sido profetizada por Simeão, momento da apresentação no templo: “Este menino será motivo de queda e elevação para muitos em Israel; será sinal de contradição” (Lc 2,34). É claro que a divisão não é desejada por Jesus, mas é inevitável à medida em que os valores do Reino são incompatíveis com a injustiça e as desigualdades do mundo. A proposta do Reino exige uma nova sociedade, um novo jeito de conceber as coisas, novas relações. Por isso Ele encontrou resistências por que, de fato, não era e nem é fácil. Deve-se passar para uma nova lógica, uma nova mentalidade. Sair do comodismo, de toda ideia falsa de bem-estar e tranquilidade. Impossível não desagregar quando se propõe isso. E as divisões provocadas por Jesus começavam dentro de casa: Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas” (v. 52). Aqui, mais uma vez, a declaração reflete o contexto da comunidade de Lucas. As conversões em massa ou da família inteira eram raras. Por isso, Lucas as supervaloriza quando acontecem, como mostra Atos dos Apóstolos (cf. At 10). Muitas vezes, era apenas um membro da família que aderia ao movimento, e isso provocava sérias desavenças na família, porque a adesão ao projeto de Jesus implicava num jeito novo e diferente de viver.

Jesus não promove a desagregação familiar. Isso é claro. Mas também é claro que o Evangelho não comporta neutralidade. E ele mesmo dá exemplos de como seriam as divisões, como consequência da força transformadora do Evangelho e do Espírito Santo: ficarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra” (v. 53). Na verdade, estas divisões são o resultado do “fogo aceso”. Ninguém pode ficar indiferente ao Evangelho. Ou se adere ou se rejeita. E Jesus não queria enganar ninguém, por isso falou claro: sua proposta de vida causaria confusão logo nas famílias. Quem aceitasse participar da construção do Reino encontraria oposição, a começar pela própria casa. Isso Ele ilustra com a imagem do rompimento das relações familiares. Aqui Ele usa o profeta Miquéias como pano de fundo: “Porque o filho insulta o pai, a filha levanta-se contra sua mãe, a nora contra a sua sogra, os inimigos do homem são as pessoas da sua casa” (Mq 7,6). Essa situação de conflito geral, explica bem o fogo que ele veio trazer.

Quem optar pelo Reino, será sinal de contradição diante de um sistema injusto e desigual. Por isso, as divisões ocorrem em todos os âmbitos, começando pela família. Seguir Jesus é absorver novos valores e viver a partir deles. É aceitar força transformadora do Espirito Santo e do Evangelho, mantendo um coração ardente de desejo por mudança de um mundo melhor e, acima de tudo, comprometer-se com as transformações que o Reino implica. 

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues
Colaborou: www.porcausadeumcertoreino.blogspot.com

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