“Deixai as crianças vir a mim, porque delas é o Reino dos Céus” | Reflexão sobre Mt 19,13-15 – Por ocasião da Celebração de Santa Dulce dos Pobres

Hoje, 13 de agosto, a Igreja celebra Santa Dulce dos Pobres. Esta baianinha que encanta a hagiografia do Brasil e do mundo, nasceu em 26 de maio de 1914, na Capital Soteropolitana. Seu nome de batismo era Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes. Irmã Dulce será futuramente seu onomástico religioso, em homenagem à irmã, a quem muito amava. A vocação para trabalhar em benefício da população carente teve a influência direta da família, uma herança do pai que ela levou adiante, com o apoio decisivo da irmã, Dulcinha. Aos 13 anos, graças a seu destemor e senso de justiça, traços marcantes revelados quando ainda era muito novinha, Irmã Dulce passou a acolher mendigos e doentes em sua casa, transformando a residência da família em centro de atendimento aos muitos empobrecidos que pululavam Salvador. A casa ficou conhecida como “A Portaria de São Francisco”, tal o número de carentes que se aglomeravam à sua porta. Também é nessa época que ela manifesta pela primeira vez o desejo de se dedicar à vida religiosa.

Em 1939, Irmã Dulce invade cinco casas na Ilha dos Ratos, para abrigar doentes que recolhia nas ruas de Salvador. Expulsa do lugar, ela peregrina durante uma década, levando os seus doentes por vários locais da cidade. Por fim, em 1949, Irmã Dulce ocupa um galinheiro ao lado do Convento Santo Antônio, após autorização da sua superiora, com os primeiros 70 doentes. A iniciativa deu origem à tradição propagada há décadas pelo povo baiano de que a freira construiu o maior hospital da Bahia a partir de um simples galinheiro. Já em 1959, é instalada oficialmente a Associação Obras Sociais Irmã Dulce e no ano seguinte é inaugurado o Albergue Santo Antônio.

O incentivo para construir sua obra, Irmã Dulce teve do povo baiano, de brasileiros de diversos estados e de personalidades internacionais. Em 1988, ela foi indicada pelo então presidente da República, José Sarney, com o apoio da Rainha Sílvia, da Suécia, para o Prêmio Nobel da Paz. Oito anos antes, no dia 7 de julho de 1980, Irmã Dulce ouvia do Papa São João Paulo II, na sua primeira visita ao país, o incentivo para prosseguir com a sua obra.

Irmã Dulce e o Papa São João Paulo II voltariam a se encontrar em 20 de outubro de 1991, na segunda visita do Sumo Pontífice ao Brasil. O Papa fez questão de quebrar o rigor da sua agenda e foi ao Convento Santo Antônio visitar a religiosa baiana, cuja saúde já se encontrava bastante debilitada em função de problemas respiratórios. Cinco meses depois da visita do Papa, os baianos chorariam a morte do Anjo Bom do Brasil.

Irmã Dulce morreu em 13 de março de 1992, pouco tempo antes de completar 78 anos. No velório, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, em Salvador, políticos, empresários, artistas, se misturavam a dor de milhares de pessoas simples e anônimas. A fragilidade com que viveu os últimos 30 anos da sua vida – tinha 70% da capacidade respiratória comprometida – não impediu que ela construísse e mantivesse uma das maiores e mais respeitadas instituições filantrópicas do país, uma verdadeira obra de amor aos pobres e doentes.

Na oportunidade de se celebrar Santa Dulce, o Evangelho nos fala do cuidado para com os pequeninos. Em sequência à reflexão de Mateus sobre a família (Mt 19,3-12), presente na Liturgia de ontem, 12 de agosto; hoje a liturgia nos apresenta o texto de Mt 19,13-15. Esta perícope traz a cena de Jesus e as criancinhas. Algumas pessoas levam crianças até Jesus para que as abençoasse. Os discípulos ficam zangados. Naquela época, crianças até doze anos não eram levadas em consideração nas relações sociais, conforme vimos em reflexão recente.

Em um contexto veterotestamentário, em grau de valia, as crianças e as mulheres simbolizavam peso e entrave, conforme a compreensão da sociedade judaica. As mulheres não tinham direito à propriedade e, por isso, não eram referenciais econômicos, sendo dependentes da figura masculina e, por isso, sofriam marginalização – mesmo que velada. Um pai preferia ter um filho homem, que continuaria sua descendência e ampliaria seus bens e patrimônios. A mulher nunca poderia exercer esse papel. Por isso, ter uma filha mulher, significava perder a perspectiva de progressão econômica e continuidade da descendência. Afinal, a figura masculina era sempre a lembrada enquanto clã. Era o homem que dava nome à descendência.

Nesta mesma ótica marginalizante, se compreende a imagem de uma criança. Não estando em sua idade adulta, era impossível participar da pedagogia da economia doméstica. Uma criança é uma criança! Por isso, é a esperança do futuro. Sob um olhar imediatista, uma criança não tinha importância no presente. Sendo completamente dependente, era um peso. Eram mera expectativa. Esperavam que crescessem e tivessem, por fim, alguma função em seu clã ou na sociedade judaica. No contexto do relato evangélico de hoje, as crianças eram um estorvo, também para o ministério de Jesus, no pensamento dos que o acompanhavam. Só atrapalhavam.

Jesus, Mestre que ensina com sabedoria e educa com amor, não participava de nenhum esquema excludente da sociedade e religião judaica. Acolhia a todos, valorizava a todos. Não poderia ser diferente com crianças. Tanto o é, que em uma perícope anterior do Evangelho de Mateus (18,3), chega a referenciar as crianças como exemplo de como devem viver seus discípulos e discípulas. É preciso tornar-se como uma criança para participar do Reino de Deus. No Evangelho de hoje, ele vai mais fundo; afirma que este Reino pertence às crianças (v. 14).

Provavelmente, na Igreja primitiva surgiu o problema de como introduzir as crianças na vida comunitária, já que – como vimos antes – não eram nem mesmo contadas como pessoas (Mt 14,21; 15,38). Para resolver a questão, a comunidade de Mateus retomou o comportamento de Jesus em relação a elas a fim de introduzi-las nos ritos básicos da vida da comunidade; tais como apresentação, imposição de mãos, oração e benção. Na comunidade cristã nascente após o Pentecostes, as criancinhas deveriam ter seu lugar especial e era imperativo que não se repetisse as pedagogias excludentes do judaísmo. É neste contexto que se deve entender o relato do Evangelho de hoje.

Em nossas comunidades, as crianças são contadas como membros, mas ainda há que se caminhar muito no sentido da inculturação das Liturgias a estes pequeninos. Eles são cristãos e cristãs, tanto quanto qualquer outro discípulo e discípula de Jesus. Merecem e precisam celebrar o Mistério Pascal com toda a Igreja. Todavia, ainda há muito a se caminhar neste sentido. Há que se reconhecer que nossas comunidades ainda não acertaram o passo, rumo a uma vivência litúrgica – verdadeiramente – protagonizando nossos pequeninos, nossas pequeninas. Não se pode negar muitos esforços e caminhos percorridos desde o Concílio Vaticano II, entretanto, precisamos acreditar que o melhor ainda está por vir. Acreditemos!

Não poderia ser menos oportuna nesta celebração, onde o tema do relato evangélico aponta para a necessidade de acolhida às crianças, celebrar nossa mui amada santa dos pobres, das crianças, dos desvalidos. Santa Dulce, a Flor da Bahia, testemunhou com sua vida que nenhuma barreira é impossível de ser superada pelo amor cristão. Ela, que amou com todas suas forças os pequeninos, nos inspire a desbravar esse ideal. Reconstruir a Casa de Deus com os pequeninos, sobretudo as criancinhas. Que Santa Dulce dos Pobres interceda por nós para que o Espírito de Deus fira nosso coração com seu amor. Amor que nos leva aos pobres, aos desvalidos, aos marginalizados. Por fim, a todos e todas que são os prediletos de nosso Pai, Javé. Deus dos pequenos e dos sofredores.

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