A Medida do Perdão é a Misericórdia | Reflexão sobre Mt 18,21-19,1

Por Hermes Fernandes

Neste dia 11 de agosto, celebramos Santa Clara de Assis. Uma vida dedicada ao amor a Jesus pobre. Esta personagem da história da Igreja é revestida do mais especial carinho do Povo de Deus. Contemporânea de São Francisco de Assis, animada pelos ideais deste Poverello do Amor, iniciou um caminho que mudou a mentalidade do ser Igreja para todos os tempos. O mundo nunca mais foi o mesmo depois dos pobrezinhos de Assis!

Santa Clara nasceu em 1193. Seu nome de batismo é Chiara D’Offreducci. É inegável sua origem nobre. Seu pai, Favarone Scifi, era conde. Sua mãe, Hortolana Fiuni, era de descendência fidalga. Clara vivia com seus pais e quatro irmãos (dois irmãos e duas irmãs), em um palácio na cidade de Assis. A história registra que sua família tinha muitas propriedades e, até mesmo, um castelo. Em um ambiente medieval, sublinhar as riquezas que compunham o ambiente das origens de Clara, ressalta sua abnegação. A decisão de seguir Jesus, ao exemplo de São Francisco de Assis, era uma mudança radical de costumes. Até para os mais experimentados na vida. Quando mais, para uma jovem em tenra idade, como aconteceu o chamado vocacional e a decisão tomada por essa grande santa da Igreja. Fez-se pobre, ao exemplo de Nosso Senhor que, desde seu nascimento, foi pobre com os pobres. Da manjedoura ao calvário, Jesus esteve entre aqueles que nada tinham, exceto o amor de Deus. Foi este Amor, que não é amado, o grande ideal de Clara e de seu mentor, Francisco de Assis. Neles a Igreja tem seu referencial. Devemos ser uma Igreja pobre, com os pobres e para os pobres.

Santa Clara morreu em Assis no dia 11 de agosto de 1253, aos 60 anos de idade. Um dia antes de sua morte ela recebeu a visita do Papa Inocêncio lV, que lhe entregou a Regra escrita por ela aprovada e aplicada a todas as Clarissas.

O Evangelho da Liturgia de hoje (Mt 18,21-19,1) fala de perdão. Oferece-nos um ensinamento sobre o perdão, que não nega a ofensa sofrida, mas reconhece que o ser humano, criado à imagem de Deus, é sempre maior que o mal que ele comete. Pedro pergunta a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” (v. 21). Para Pedro parece ser já o máximo perdoar sete vezes a uma mesma pessoa; e talvez a nós pareça ser já muito perdoar bem menos que isso. Mas Jesus responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (v. 22), isto é, perdoar sempre. O número sete, que biblicamente referencia a ação de Deus, multiplicado por um múltiplo dele mesmo; significa perdoar com a media infinita de Deus. Pelo critério da misericórdia do Pai, que não conhece limites. E confirma isto narrando a parábola do rei misericordioso e do servo impiedoso, na qual, mostra a incoerência daquele que antes foi perdoado e depois se recusa a perdoar.

O rei da parábola é um homem generoso que, movido pela compaixão, perdoou uma dívida enorme — “dez mil talentos” — a um servo que o suplica. Mas aquele mesmo servo, ao encontrar logo a seguir outro servo como ele que lhe deve cem denários — ou seja, muito menos —, comporta-se de forma impiedosa, mandando que lhe trancasse na prisão. A atitude incoerente deste servo é também a nossa quando recusamos o perdão aos nossos irmãos. Enquanto o rei da parábola é a imagem de Deus que nos ama de um amor tão rico de misericórdia a ponto de nos acolher, amar e perdoar constantemente.

Desde o nosso Batismo Deus nos perdoou, antes condenandos a uma dívida insolúvel: o pecado original. Depois, com uma misericórdia sem limites, Ele perdoa-nos todas as culpas quando assumimos os compromissos de nosso batismo e mostramos só um pequeno sinal de arrependimento. Deus é assim: misericordioso.

Quando somos tentados a fechar o nosso coração a quem nos ofendeu e nos pede perdão, lembremo-nos das palavras do Pai celeste, personificado no rei compassivo da parábola, ao servo impiedoso: “Empregado perverso, eu te perdoei toda a tua dívida, porque tu me suplicaste. Não devias tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?” (Vs. 32-33). Qualquer pessoa que tenha experimentado a alegria, a paz e a liberdade interior, que vem do perdão recebido, pode e deve abrir-se, por sua vez, à possibilidade de perdoar.

Na oração do Pai-Nosso, Jesus quis inserir o mesmo ensinamento desta parábola. Pôs em relação direta o perdão que pedimos a Deus com o perdão que devemos conceder aos nossos irmãos: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam” (Mt 6, 12). O perdão de Deus é o sinal do seu amor transbordante para cada um de nós: é o amor que nos deixa livres de nos afastar, como o filho pródigo, mas que espera todos os dias o nosso regresso. É o amor audaz do pastor pela ovelha perdida. É a ternura que acolhe cada pecador que bate à sua porta. O Pai celeste — nosso Pai — está cheio, cheio de amor, e quer oferecê-lo a nós, mas não o pode fazer se fecharmos o nosso coração ao amor pelos outros.

Que Santa Clara de Assis interceda por nós e nos ajude a estar cada vez mais cientes da gratuidade e da grandiosidade do perdão recebido de Deus, para nos tornarmos misericordiosos como Ele, o Pai, é lento para a ira e imenso no amor. Sejamos instrumentos de missericórdia em nossos dias, como reflexo do amor de Deus, diante de tantas atitudes e discursos de ódio. Ao exemplo de Clara e Francisco de Assis, sejamos semeadores do amor de Deus. Amor que não e amado!

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