Se o grão de trigo não morrer, não dará frutos | Reflexão sobre Jo 12,24-26

Por Hermes Fernandes

Nesta Quarta-feira da 19ª Semana do Tempo Comum, a Igreja Celebra a Festa de São Lourenço. Nasceu em 225 e morreu martirizado em 258. Era diácono da Igreja em Roma e seu martírio se deu durante a perseguição de Valeriano I. Em 257, os cristãos começaram a ser perseguidos e mortos por ordem deste imperador. Em 258, o Papa Sisto II foi decapitado. Depois da morte do Papa, o imperador exigiu que a Igreja lhe entregasse seus bens, dentro de 3 dias. Vencido o prazo, São Lourenço apresentou os pobres que eram socorridos pela Igreja e disse ao imperador: Estes são os bens da Igreja. Valeriano, então, com muita raiva, ordenou que Lourenço fosse queimado vivo. O santo manteve a alegria no momento da execução, mostrando sua profunda fé na vida eterna, no encontro com Jesus Cristo. Esta disposição alegre em dar sua vida pelo anúncio do Evangelho e o Projeto do Reino de Deus, é retratada na narrativa de sua execução, revestida de certo humor. Isto, para reforçar sua disposição em comprometer-se pelo amor a Jesus, amor aos pobres e toda a Igreja nascente. Amor e fidelidade até às últimas consequências. O seu sepulcro encontra-se junto à Via Tiburtina, no Campo Verano. Constantino Magno erigiu uma basílica naquele lugar. Sua celebração já tinha se difundido na Igreja desde o século IV.

Para bem celebrar a Festa deste Santo Mártir, a Liturgia da Palavra nos sugere a Leitura de 2Cor 9,6-10 e de Jo 12,24-26. Sigamos comentando os textos sagrados da Liturgia de hoje.

Oportunamente na Festa de São Lourenço, temos o escrito paulino da Segunda Carta aos Coríntios. Esta segunda missiva dirigida à Igreja de Corinto, é fruto da superação de problemas fraternos, os quais, melindravam as relações comunitárias. Na dinâmica da reconciliação e da alegria que dela se pode inferir, a Segunda Carta à comunidade coríntia trata da alegria da ação missionária; da consolação dos cristãos e cristãs, face às dificuldades; da compreensão da mudança de paradigmas, isto é, do judaísmo para a vida cristã, da Antiga à Nova Aliança; e, por fim, do empenho de todos em ações de misericórdia, em favor dos empobrecidos. Todo este escrito paulino exalta a esperança e a alegria da fidelidade ao Evangelho. Texto bem oportuno quando celebramos um mártir que deu sua vida pelo projeto do Reino, com alegria e desprendimento, sempre com o olhar tendo em perspectiva os pobres e pequeninos.

Analisando mais amiúde a Primeira Leitura da Liturgia, pode-se perceber que Paulo usa de citações livres de alguns provérbios. Podemos identificar possíveis paralelos nos conselhos do apóstolo em Pr 11,24; 19,17; 22,8; e ainda Eclo 18,15-18. O versículo 9 da primeira leitura de hoje cita o Salmo 112,9; no qual o salmista aplica ao homem o que antes este mesmo salmo atribuíra a Deus. No versículo 10 da carta paulina, o autor recorda a mensagem do Segundo Isaías aos exilados, que exprime, sob uma imagem agrária, a fecundidade da Palavra de Deus (cf. Is 55,10). A generosidade humana participa de fecundidade semelhante. Aqui, o auxílio aos necessitados, traz significado mais próximo de justiça do que esmola. A palavra usada no original grego, diakaioyse, confirma esta percepção. Por isso, o texto paulino – já em seu tempo – manifesta preocupação com a necessária opção preferencial pelos pobres e com a promoção humana, enquanto viés de se levar à plenitude a vontade de Deus. E São Lourenço, a quem celebramos hoje, compreendeu isso no mais íntimo de seu ser. A ponto de dizer que a riqueza, os bens da Igreja, eram os pobres.

No evangelho, o texto joanino fala de abnegação e compromisso, necessários para se viver como cristão e cristã. Em um contexto como hoje, em que celebramos um dos mais célebres mártires da Igreja, não poderia ser mais apropriado ao dia do que a exortação de Jesus ao livre sacrifício pelo Reino de Deus. Aqui não compreendamos o “perder a vida” somente como a martiria, a morte por assassínio. Vai mais além! Pode nos significar a compreensão do sentido de nossa vida a partir da própria dinâmica do discipulado. Jesus convida invectivamente aos seus discípulo e discípulas a lançaram-se rumo ao infinto, confiando suas vidas ao projeto de uma nova realidade, sob a perspectiva dos valores do Reino de Deus. Aqui justifica entender que os projetos do Reino, naturalmente, confrontam os projetos da atual realidade. Somos chamados, pela pedagogia do poder e da ganância, a buscar sempre ter mais, para sermos mais. O Evangelho nos propõe uma lógica inversa. No caminho cristão, o servir é palavra chave para bem viver a plenitude em Deus. O fazer-se menor, colocando-nos ao lado dos pequenos, é a forma mais assertiva de seguimento de Jesus. É morrer para os valores deste mundo, renascendo nos valores do Reino de Deus. Daí, teremos a certeza de que escolhemos a melhor parte: viver segundo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Que nossas comunidades, assim como a Comunidade de Corinto, possam viver alegremente o seguimento de Jesus. Deixando morrer em nós tudo o que nos afasta do Cristo, ou seja, tudo o que não nos possibilite uma vida devidamente comprometida com o Evangelho, colocando-nos ao lado de nossos irmãos e irmãs, sobretudo, os mais fracos. Sigamos nosso caminho anunciando o Evangelho com nosso testemunho. Nossas atitudes reflitam a mensagem de Cristo e instaure um novo tempo, revertendo a lógica marginalizante e excludente que percebemos ao nosso redor. Na pedagogia de Jesus, os pobres refletem o amor que não é amado, nosso bem-querer, nossos prediletos. Como nos ensinou o mártir São Lourenço, os pobres são nossa maior riqueza. E onde estiver nosso tesouro, lá estará nosso coração (cf. Mt 6,21).

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