A Igreja sempre foi vista como Subversiva | O Exemplo de São João Bosco

Por Hermes Fernandes

Na opinião comum, subversivo significa aquele que tem discurso ou atos pela transformação da ordem estabelecida. Na origem etimológica da palavra, pode ser aquele que assume em sua vida um discurso abaixo (sub) do pensamento, discurso (verso) estabelecido. Enquanto discurso estabelecido, podemos entender tudo o que se diz a partir da situação vigente. Bem o sabemos que a situação nem sempre é justa, equitativa, correspondente com a verdade. Aquele que fala sob o verso, abaixo do discurso vigente, fala a partir dos subjugados por este discurso, esta situação. Neste sentido, nem sempre subversivo pode nos significar revolução, conflito. Pode, simplesmente, se tratar da voz dos pequenos, pobres, excluídos, subjugados. Por isso, quando a Igreja posta-se ao lado dos empobrecidos, torna-se subversiva; fazendo de sua voz e de seus atos uma opção por aqueles que não tem voz e nada têm enquanto vislumbre de esperança. Às vezes, subversivo significa fidelidade ao Evangelho.

Pensando no bem dos homens e mulheres de boa vontade, a história da Igreja está marcada por figuras que contrariaram os rumos que a sociedade seguia. Rumos estes, ausentes de justiça e amor fraterno. Negando aos pobres, sobretudo, a dignidade humana. Sonho de Deus para seus filhos e filhas.

Bento de Núrsia, Francisco de Assis, Francisco Xavier, Clara, Inês, João Bosco, entre tantos homens e mulheres nos altares dos santos e nas memórias de nosso povo; destacam-se por sua capacidade de amor sem medida. Amor este que subverte o discurso e os atos. Transformando vidas e histórias. Para isso, não precisaram romper com o Magistério da Igreja. Claro que nem o desejaram! Romperam, sim, com os modelos de ser e viver que homens e mulheres viviam em seu tempo. Onde o lucro dos patrões estava acima do bem estar e da humanidade de seus empregados. Onde pessoas são tratadas como coisas, sendo-lhes negado o direito ao sonho e ao futuro. No passado, e ainda hoje, nascer pobre significava e significa ainda – em muitos lugares e ciclos da sociedade – estar desprovido de direitos e respeito. Com isso, estão sujeitos à fome, à ausência de uma moradia digna, do cuidado com a saúde, fadados à violência injustificada. Ser pobre, em muitas situações, é ter o direito a ser gente negado.

Voltando a falar dos homens e mulheres da história da Igreja que, suscitados ao cuidado para com esses abandonados, se tornaram incansáveis trabalhadores pela justiça e pela caridade, gostaria de lembrar a pessoa de São João Bosco.

São João Bosco, Dom Bosco como ficou para a história, nasceu João Melchior Bosco, em 1815, na bela Castelnuovo, província de Asti, Itália. Seguidor da espiritualidade e filosofia de S. Francisco de Sales, Bosco era um fervoroso devoto de Nossa Senhora Auxiliadora. Seu ministério sacerdotal foi marcado pela sensibilidade e identificação com as dores dos meninos e meninas pobres. Em seu tempo (quem sabe ainda hoje?), meninos e meninas pobres não tinham caminhos para qualquer mudança de sua sorte. João Bosco nasceu de família pobre e nunca deixou suas origens. Sua vida foi marcada pela evangélica opção pelos empobrecidos.

Na Turim onde vivia Bosco, os rapazes eram usados como mão de obra barata pelos patrões. Em sua grande maioria órfãos, os meninos que São João Bosco acolhera, eram explorados pela ideia de progresso. Os patrões acreditavam que faziam muito em lhes oferecer 12 horas de trabalho, em troca de pão e um mísero pagamento que sequer lhes asseguravam a moradia e o vestuário. Sem contar a insalubridade. Na biografia do santo fica claro que muitos desses jovens perderam a vida em acidentes de trabalho. Sem direito, sequer, ao funeral digno. Trabalhavam pelo pão, ou eram excluídos pela sociedade Turinense como esmoleres e marginais. Por estes jovens João Bosco deu sentido à sua vida e ministério. Tornou-se pai, amigo, mestre e protetor dos meninos pobres. Isso lhe rendeu forte perseguição da sociedade dos bem-nascidos de Turim. E, lamentavelmente, de alguns dos irmãos de fé na Igreja.

Não obstante tantos dissabores, taxado de santo por uns e subversivo por outros, seguiu firme em sua vocação de serviço ao Cristo Pobre, personificado nos meninos pobres e marginalizados.

Mais tarde, ainda inspirado em S. Francisco de Sales, fundou os salesianos, com sede em Turim. Ainda, juntamente com Maria Domenica Mazzarello, fundou o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, uma congregação religiosa de freiras dedicada ao cuidado e educação de meninas pobres.

Bebendo das fontes da vida de São João Bosco, percebemos que todos e todas que se dedicarem aos pobres, acolhendo-os, socorrendo-os em suas necessidades imediatas e lutando para que possam ter um futuro melhor; serão chamados de subversivos. A isso não se chama de heresia e sim de compromisso com a mensagem dos Evangelhos. Até penso ser elogioso esse rótulo, se entendermos que subversivo é aquele que dá voz a todos e todas que estão abaixo dos gritos da sociedade excludente e marginalizadora. O Evangelho é subversivo, pois o próprio Jesus disse que felizes são os pobres e deles é o Reino de Deus (cf. Lc 6,20b).

4 comentários em “A Igreja sempre foi vista como Subversiva | O Exemplo de São João Bosco

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  1. Pe Hermes, você toca nossos corações com suas palavras. Sem perder sempre o tom ponderado, nos exorta à conversão de viver o Evangelho comprometidos com os pobres.

    Obrigado por suas palavras e que Deus sempre continue lhe inspirando.

    Deste seu irmão em Cristo, que lhe ama e aplaude,

    Pe. Rafael.

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