Juízes: utopia ou invenção de uma sociedade igualitária? | Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

 Por Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Introdução

A narrativa bíblica do Período dos Juizes nos coloca em contato com uma fase importante da história de Israel. Fruto da OHDtr (Obra Histórica Deuteronomista), ela quer ser uma crítica à infidelidade de Israel à Aliança com Deus. Como isto acontece? Qual a lição desta fase da história para os exilados na Babilônia? Uma sociedade igualitária foi possível em Israel? Estamos diante de uma história inventada? O que tem de histórico na narrativa. O que a arqueologia bíblica tem a dizer sobre o Período dos juízes? Estas e outras perguntas serão objetos de nossa investigação nas páginas seguintes.

 1. A utopia bíblica de uma sociedade igualitária

A utopia de um novo tempo na Bíblia está presente em vários relatos bíblicos. No Segundo Testamento, o livro do Apocalipse faz uma grande inclusão, isto é, repete as páginas iniciais da Bíblia sobre o Paraíso Terrestre ao apresentara a utopia da Jerusalém Celeste. Esta utopia parece ganhar corpo no livro de Juízes. Verdade ou não, os fatos aí descritos nos remetem ao sonho de uma sociedade igualitária. Esta história inicia-se com o livro de Josué, quando fala da conquista da terra. Assim, a passagem do livro de Josué para o de Juizes significa que estamos em outra fase da história de Israel. Isto fica claro já na abertura do livro de Juízes, no capítulo 2, versículo 10, quando o autor deteronomista afirma: “Toda aquela geração foi reunir-se também com seus pais. Depois surgiu uma outra geração que não conheceu o Senhor, nem as grandes obras que fez em favor de Israel”. A primeira fase se refere à época da conquista da terra, realizada sob a liderança de Josué; Já a segunda, ao tempo pré-monárquico de Israel. E é neste período que a terra de Israel se vê unificada por meio de lideranças e organizações internas, que permitem sonhar com uma sociedade igualitária. Chamamos a esta experiência de Tribalismo ou Período dos Juízes, que se firmou em Israel, depois da libertação dos 430 anos de opressão no Egito, entre 1200 a 1030 antes da Era Comum (a.E.C.) .

O livro de Juízes narra a ocupação da terra de Canaã de modo diferente do livro de Josué. Se para o livro de Josué a ocupação de toda a terra de Canaã foi de única vez, o livro dos Juízes mostra que muitas cidades não foram conquistadas (Jz 1, 26-36), o que ocorreu somente em tempos posteriores, no Reinado de Salomão. Outro ponto histórico importante a ser considerado é que Josué é citado somente uma vez no livro dos Juizes, no capítulo 2, versículos de 6 a 10. A opinião dos estudiosos é que este texto é um acréscimo redacional que tem por finalidade unir os dois livros. O redator ou redatores da escola deuteronomista, deste modo, unificaram estes dois livros para contar a história de Israel na sua ótica.

1. 1 – A sociedade igualitária no Período dos Juízes

 Os manuais de História de Israel (N. Gottwald, por ex.) são solícitos em afirmar que a conquista da terra exigiu do povo um compromisso de solidariedade entre os descendentes de Jacó e que, por isso, Israel se organizou socialmente por grupos de famílias, isto é, em Clã, uma Associação de Defesa das Famílias. A união de Clãs formava uma Tribo. Daí Tribo de Judá, Dã, Simeão, Manassés, Zabulon, Nefatali, Rúben, Isaacar, Gad, Aser, Benjamim e Efraim. Esses nomes provêm dos filhos e netos do Patriarca Jacó.

Considerando a hipótese de uma sociedade igualitária, a vida nas tribos seria caracterizada do modo apresentado a seguir. Ninguém poderia apropriar-se exclusivamente da terra. Todos tinham o acesso a ela. As lideranças tribais eram chamadas de juizes, isto é, pessoas escolhidas para coordenar uma guerra ou resolver questões jurídicas internas. Mulheres também exerceram o papel de juizas. Os anciãos, que poderiam ser um juiz, tinham papel importante na sociedade igualitária de Israel. Em tempos de guerra o povo era convocado. Não havia um exercito regular. Os bens e propriedades adquiridos com o trabalho eram coletivos. Não havia propriedade privada. Uma tribo supria as necessidades da outra com os seus produtos alimentícios por meio de trocas. Quando a produção excedia à necessidade básica, organizavam-se festas para consumir o excedente.

Em questões religiosas, o povo celebrava no local de residência. Não havia um templo que centralizasse o culto, mas tradições regionais e nacionais celebradas nas tribos. Não havia propriamente os sacerdotes. No entanto, Jz 8, 24-28 chega a mencionar que Gedeão fez para si uma espada sacerdotal. Outros textos que falam de sacerdotes estão em apêndices no livro (Jz 20, 27-28; 17-18). Pessoas do povo celebravam o culto. Assim, Gedeão, por ocasião de seu chamado (Jz 6, 19-24), oferece um sacrifício e constrói um altar. O juiz Jefté faz um voto e promete oferecer um holocausto a Javé (Jz 11,29-40), caso vencesse a guerra. Manoá, pai de Sansão, oferece um sacrifício a Javé (Jz 13,15-25).

1. 2 – A liderança dos Juízes

A utopia e a concretização de uma sociedade igualitária em Israel, no período tribal, foi fruto da organização das tribos de Israel e de suas lideranças, chamadas de juízes maiores e menores. A maior parte do livro de Juízes (3,7-16,31) consiste em contar as façanhas destes heróis. Os Juízes chamados de Maiores (Débora, Gedeão, Sansão, Barac, Aod, Otoniel, Jefté e Samuel) defendiam as tribos e o país contra os inimigos. Deus os suscitava (Jz 2,16). Eles eram líderes carismáticos, salvadores e libertadores (Jz 3,9-10; 6,34; 9,17; 11,29; 14,6.19; 15,4-8). Um juiz maior não era hereditário na função. Os Juízes Menores, (Samgar, Tola, Jair, Abesã, Abdon e Elon), cuidavam das questões internas de governo de cada tribo e eram considerados administradores vitalícios da justiça. Eles podiam exercer a liderança sobre todo o país (Jz 10,1-2). A seguir, apresentaremos a história de alguns juizes em Israel.

1. Débora: Mulher corajosa. O seu nome significa Abelha. Casada com Lapidot (Jz 4,4), Débora foi considerada Profetisa, Juíza e “Mãe de Israel” (Jz 5,7) por causa da sabedoria em julgar e organizar o povo na luta contra os cananeus. Ele lutou contra Sísara, general do rei de Canaã, Jobin (Jz 4,6-7; 5,12-15) . Débora fez várias denúncias, como: Meroz por não vir em auxílio do Senhor, durante a guerra (Jz 5,23); o desânimo das tribos (Jz 5,23); a adoração de deuses novos (Jz 5,8) e as tribos de Rúben, Galaad, Dã, Aser e Neftali, por não aderirem à luta em defesa da confederação tribal. Débora tinha uma certeza: “Deus vai entregar o inimigo nas mãos de uma mulher” (Jz 4,9), o que, de fato, ocorre com Jael, a “bendita entre todas as mulheres”, que matou Sísara (Jz 4,17-22; 5,24-30). Com as façanhas da profetisa e juíza Débora, a terra descansou em paz durante 40 anos, pois o inimigo Jabin foi vencido (Jz 5,31).

2. Sansão: O Juiz Maior, Sansão, foi escolhido por Deus desde seu nascimento. Ele ficou famoso pela sua força (Jz 14). A atuação foi sobretudo na defesa de Israel contra os filisteus. Ele era um Naziereu, isto é, um consagrado a Deus, e descendente da tribo de Efraim. Seus longos cabelos eram sinal de sua consagração e força física. Seduzido pela filistéia Dalila, que consegue cortá-los, tirando a sua força e possibilitando a sua prisão por parte dos filisteus. Preso por longo tempo, seus cabelos tornam a crescer. Com isto, sua força é retomada e, por isso, ele derruba templo de Dagon Jz (16,22-30), provocando a sua morte e a dos príncipes dos filisteus. A força de Salomão livrou o povo a iniciar uma luta contra o domínio dos filisteus e a manter a posse da terra. Sansão atuou como juiz durante 20 anos em Israel. A sua história encontra-se em Jz 13-16.

3. Aod: Juiz Maior, Aod, da tribo de Benjamim, atou 80 anos como juiz em Israel. O alvo de sua luta foi os moabitas. O canhoto Aod tramou a morte do rei de Moab, Eglon, que era muito gordo, do seguinte modo: com os seus compatriotas levou tributo ao rei. No lado direito de sua roupa, escondeu um punhal. Depois da oferta, aqueles que estavam com ele voltaram para Israel. Aod, estando a sós, com Eglon, numa sala superior, o feriu de morte com o punhal e fugiu pelo corredor, deixando a porta fechada. Os servos do rei nem perceberam a sua atitude audaz. Depois disso, Aod fugiu para o lado oeste do rio Jordão. Tendo convocado os israelitas das tribos de Benjamim e Efraim, tomou os vaus do Jordão, de modo que o inimigo não pudesse passar. Ele conseguiram matar 10 mil homens moabitas, vencendo este povo inimigo e devolvendo a paz e libertação para Israel. A história de Aod se encontra em Jz 3, 12-30.

4. Jair. Deste Juiz Menor, o livro dos Juizes diz pouca coisa. Somente ele era da tribo de Galaad, que julgou Israel por 22 anos, que tinha trinta filhos, que montavam trinta jumentos e possuíam trinta cidades, chamadas ainda hoje de Adaures de Jair, na terra de Galaad. Jair morreu e foi sepultado em Camon. A história de Jair encontra-se registrada em Jz 10, 3-5.

5. Samuel: Descendente da tribo de Efraim e homem polivalente, Samuel foi considerado, além de Juiz Maior, também sacerdote, profeta, vidente, homem de Deus, chefe de exército e escritor (1Cr 29,29) . Samuel viveu no templo de Silo como consagrado ao Senhor (1Sm 2,18-21). Atou em Telam e Betel-Guilgal. Como profeta e último dos juízes, Samuel alertou o povo, que pedira um rei, que a instituição da monarquia em Israel traria mais malefícios que benefícios para eles. Mesmo assim o povo quis um rei.

Os relatos acima apresentados sobre os juizes, assim como outros encontrados no livro dos Juízes, podem nos dar a impressão que esses personagens exerciam liderança em todo Israel. A história não era bem assim, cada juiz agia na sua tribo e em união com as vizinhas. As doze tribos, em um único grupo, jamais se uniram para defender o país, embora isto possa ser verdade no acréscimo redacional do capítulo 20. As tribos, embora unidas pelo parentesco e fé, viviam de forma independentes.

2 – O livro dos Juízes na ótica deuteronomista

 Os princípios teológicos da corrente teologal deuteronomista estão presentes no livro dos Juízes. Sendo um dos livros da Obra Histórica Deuteronomista (OHD), Juízes foi organizado para demonstrar como Deus age na história em favor de seu povo e da Aliança selada com ele. No Exílio da Babilônia, o povo precisava compreender o porquê daquela desgraça. A resposta parece única: a fidelidade à Aliança é sinal de paz e prosperidade na terra de Israel. Rompendo este principio, tudo vai mal.

A colocação do livro de Juízes depois do de Josué tem como objetivo demonstrar que o povo havia se tornado infiel a Deus, depois da morte de Josué. Até Josué, o povo era fiel. Juízes é o tempo da infidelidade. Javé responde castigando o povo com invasões de povos inimigos. O povo se arrepende e clama a Deus misericórdia. Deus envia um Salvador na pessoa de um Juiz ou Juíza para os libertar. Assim, o juiz é o transmissor da fidelidade de Deus ao povo. Com eles a aliança é restabelecida na história de Israel. Assim, a construção de uma história abençoada, de paz, depende de Deus e das atitudes dos israelitas. A fidelidade atrai a bênção, a infidelidade, a maldição. Isto o povo não podia se esquecer nunca. O Exílio da Babilônia foi fim lógico de uma longa história israelita de infidelidade, que começou com a morte de Josué (1200 a.E.C.) e culminou com destruição de Jerusalém, em 587 a.E.C. Assim, o deuteronomista relê a história de Israel.

2.1 – O esquema narrativo do livro dos Juízes

Para descrever a história de Israel no livro dos Juízes, o redator deuteronomista utiliza o seguinte esquema narrativo:

1. Introdução Histórico-geográfica (1,1-2,5). Nestes textos encontramos a história de lutas políticas e militares de tribos para o ocupar as colinas ocidentais. O redator procura mostrar a fraqueza de algumas tribos do norte que não foram capazes de expulsar os cananeus da terra de Israel. Isto nos remete, evidentemente, ao exílio da Babilônia. Ao escutar esta história, o povo fortaleceria a pretensões sacerdotais das tribos de Judá (Sul) que ali estavam .

2. Introdução Histórico-doutrinal (2,6-3,6). Nesta introdução, a primitiva do livro de Juízes, é citado novamente Josué como personagem importante na manutenção do sistema tribal. Ele faz parte do grupo da primeira hora que era fiel a Deus e ao sistema tribal. Com a morte de Josué, a outra geração não mais foi capaz de manter a fidelidade histórica da Aliança. A permanência de povos estrangeiros no meio de Israel foi permitida por Deus por causa da infidelidade do povo (2, 20-3,6).

3. História dos doze juízes, seis maiores e seis menores (3,7-16,31). Esta é a parte central do livro dos Juízes. São narrados o chamado e as façanhas destes líderes tribais e nacionais. Sobre alguns, o relato é pequeno. Sobre outros, uma longa história é descrita, contendo o chamado divino e ações como juiz, seja como líder carismático libertador, seja apenas como juiz de causas menores e governo local. Nesta parte central do livro dos Juízes, o redator deuteronomista se preocupou em considerar 12 juízes, com o objetivo de ressaltar o valor simbólico deste número para Israel. Samgar (3,31), que nem israelita era, foi contado como juiz para se chegar ao número 12. Outro detalhe deuteronomista importante é contagem dos anos de atuação de cada juiz, somado a outros números na Bíblia, chega a 480 anos, o que equivale ao número de anos que a história deuteronomista contava entre a saída do Egito e a construção do Templo de Jerusalém, em 960 a.E.C. Esta cronologia deuteronomista deixou sua marca no livro dos Juízes, contando tudo que ocorreu entre a morte de Josué e o início do ministério de Samuel . Vale também salientar que o juiz, para o deuteronomista, é a pessoal ideal para manter a aliança, mesmo que ele cometa equívocos históricos, contrários ao pensamento deuteronomista, como o de aceitar mais de um lugar para o culto e sacrifícios de humanos, como no caso da filha do Juiz Jefté (11,29-40). O juiz é um herói histórico.

4. Apêndice sobre a migração da tribo de Dan do seu território inicial, a oeste de Benjamim, para a parte alta do vale do Jordão (17-18). Esta tribo sai da região de terras cultiváveis, como a Sefelá, e vai para as nascentes do Rio Jordão. Nota-se no texto uma ridicularização dos cultos e santuários fora de Jerusalém. Percebe-se a influência sacerdotal na valorização do culto centralizado em Jerusalém.

5. Apêndice sobre a guerra contra a tribo de Benjamim, suas causas e consequências (19-21). Benjamim perde as guerras, na avaliação do redator, por causa de um sistema tribal fraco, que não é capaz de agir com braço forte. Nisto está a saudade do tempo da Monarquia. Só ela poderia salvar o povo do Exílio.

O livro dos Juízes, organizado a partir do esquema acima apresentado, tem com objetivo teologizar a história de Israel a partir dos juízes. “A integração das doze tribos numa árvore genealógica ou tribal, ou seja, o esquema das doze tribos, é uma construção ideal de um grande Israel, que data dos dias de Davi. Jamais existiu como organização política antes dele. Como Judá partilhava da mesma fé javista de Israel, o termo Israel, com essa conotação religiosa, estendeu-se com o tempo também a Judá” . Assim, a história dos juízes ganha uma dimensão linear e universal. A história de um juiz é a de “todo Israel”. O livro dos Juízes que mostrar este fato.

2.2 – O esquema deuteronomista de avaliação da história no livro dos Juízes

O deuteronomista analisa a história de Israel no período dos juízes utilizando-se de um esquema quaternário e cíclico, ou seja, ele lê e avalia a história do seguinte modo: pecado-castigo-conversão-salvação. O povo peca, não seguindo a Aliança (2,11.13.17); Deus envia um castigo (2,14-15a.20; 3,8); O povo se arrepende e suplica (3,15a; 10,16); Deus responde enviando para o povo Juízes (2,16; 3,9.15) e a paz volta a reinar no país (3,11.30; 5,3; 8,28).

1. O povo peca, não seguindo a Aliança. O pecado que o deuteronomista comprova e denuncia é o do rompimento com sistema tribal, que ocorre toda vez que as tribos abandonam a Deus, seguindo os ídolos, os deuses dos cananeus, prestando, por exemplo, culto a Baal e Astarte. A Aliança com Javé, o Deus de Israel, não permite deuses paralelos.

2. Deus envia um castigo. O castigo pela infidelidade consiste em entregar o povo à mercê de saqueadores e reis, que os despoja, vende-os aos inimigos os deixa voltar as ser escravos dos reis cananeus. Deus, como era previsto no tratado de Aliança, caso esta fosse rompida, é implacável na sua ação.

3. O povo se arrepende e suplica. O castigo é tão pesado que o povo se arrepende e clama por perdão. “Nós pecamos! Trata-nos como te parecer bem, mas somente te rogamos que nos liberte hoje!”, assim, do fundo do poço, o povo clamava a Deus. A situação de sofrimento parece ter chegado ao seu limite.

4. Deus responde enviando Juízes. Os juízes entram na história de Israel como líderes enviados ou suscitados por Deus para organizar e libertar o povo de seu sofrimento. Como vimos, a ação destes juízes, sejam Maiores ou Menores, devolvem a paz ao povo. A terra volta a descansar em paz, durante o período em que este juiz age.

O esquema de avaliação da história não termina na quarta etapa. Ele volta para a primeira etapa. O povo peca, Deus castiga, o povo se arrepende, Deus liberta, o povo peca… Assim parece ser a nossa vida: um constante querer colocar-se no caminho de Deus. É a dialética da vida a caminho.

Deus sempre foi fiel à Aliança feita com o seu povo escolhido, Israel. Este, por sua vez, é que fora infiel. A perda da memória história leva o povo de Israel a romper a Aliança. A destruição de Jerusalém, a perda da terra e consequente exílio na Babilônia, são consequências lógicas desta infidelidade. Olhar o passado, no caso, o período dos juízes, significa retomar o tempo de bênção e rejeitar as infidelidades ali cometidas. Neste sentido, o deuteronomista quer inculcar no povo a esperança de um novo tempo, após o exílio. Olhar o passado ajuda a recobrar forças para o futuro. A saída da Babilônia deveria provocar no povo o desejo de recomeçar, assim como no período dos juízes, mesmo que em moldes diferentes. Assim, como no período dos juízes, o povo devia se converter.

3 – A sociedade igualitária inventada no livro dos Juízes

Estudos recentes sobre o Período dos Juízes, com embasamentos arqueológicas, caminham em direção inversa ao apresentado anteriormente . A justificativa que não havia rei em Israel, dito em forma de um jargão no livro dos Juízes (Jz 21,25; 17,6; 18,1;19,1) quer mostrar a importância dos juízes na sociedade igualitária do período em questão. O autor do livro dos Juízes projetou para o passado o problema do seu tempo, Exílio e Pós-exilio. Afirmar, por outro lado, que o povo agia cada a seu modo, porque não havia rei em Israel, é dizer que a monarquia é a solução para Israel. Por outro lado, a arqueologia mostra a presença de palácio, isto é, de rei em cidade como Meguido.

A contagem dos anos de atuação de cada juiz, seja Menor ou Maior, é fictícia e utópica. Dizer que um juiz atuou 40 anos (Otoniel, Débora, Barac, Gedeão) significa relembrar o tempo utilizado pelo povo para se libertar das amarras opressoras do Egito, já no deserto. O número 40 representava o tempo de vida do ser humano naquele então. Além disso, a história de cada juiz é carregada de elementos folclóricos e legendários.

O deuteronomista, ao projetar um novo futuro para o seu povo, inventa uma sociedade igualitária num passado longínquo. Para tanto, ele utiliza fatos lendários e personagens fictícios. Exemplo disso é, por exemplo, o fato do valor conferido ao enigma de Sansão (Jz 14,12-20).

As tribos em Israel existiram, mas a “a sistematização formal em uma liga de 12 tribos, com territórios delimitados e adquiridos por meio de sorte, em um território conquistado e vazio é obviamente utópica – sem nunca ter existido – e tardia, e ainda sim concebida em função da re-ocupação pós-exílica. ” Contradizendo a teoria que a Confederação Tribal se formou a partir da lutas contra outros povos, descobertas arqueológicas mostram os primeiros israelitas viviam em relativa harmonia, longe das rotas comerciais, sem templo e poder centralizado. A tese defendida hoje entre arqueólogos é que a formação de Israel como povo ocorreu de forma gradual e pacífica e a partir da sociedade cananéia. Israel é Canaã transformado .

A arqueologia mostra que a tomada de Jericó ocorreu muito tempo depois de Josué. As escavações em cidades como Ai, Khirbert Raddana, Shiloh, Dan e tantas outras demonstram uma identidade muito grande entre cidades cananéias da planície e da colina, habitadas pelos israelitas. Isto desmantela a tese clássica de Norman Gottwald que Israel se formou no período tribal fazendo oposição às cidades-estados cananéias, constituindo-se uma sociedade igualitária, como descrevemos no decorrer desde artigo . O trágico desta afirmação é que podemos concluir que a história de Israel e, nele o período tribal, seria uma invenção e não histórico.

4- A utopia de uma sociedade igualitária não pode morrer

1- O período dos juízes, ainda que utópico, é o tempo da construção da identidade israelita de uma sociedade fraterna e sem divisões. Na luta contra os reis opressores de Canaã, Israel liderou a organização e impôs a sua fé em Deus libertador. Muitos povos aderiram ao projeto dos fugitivos da opressão egípcia. Outros, no entanto, como filisteus, medianitas e moabitas tornaram-se inimigos.

2- Infelizmente, vários motivos propiciaram o fim do Período Tribal, como: a domesticação do boi, a invasão dos filisteus, o desejo das tribos terem um exército profissional pra a defesa de suas terras e propriedades e um governo centralizado que pudesse unificar as tribos, a briga entre as lideranças pela condução do processo político, a corrupção dos filhos do sacerdote Eli e Samuel, o enriquecimento de algumas tribos e a necessidade de conquistar mais terras e a idolatria .

3- A simbologia de 12 tribos se liga automaticamente aos 12 filhos (netos) do Patriarca Jacó. A história foi organizada de modo a conformar as informações com os dados da história. Um juiz que nem israelita era (Samgar) entrou na lista para completar o número 12. Com certeza, havia mais juízes. Ao autor bíblico não interessa este erro histórico. O importante é que Deus estava presente na história de seu povo escolhido, Israel.

4- A história de Israel, lida na ótica deuteronimista no livro dos Juízes, quer ser uma teologia da história, marcada pela esperança de um novo tempo, uma lâmpada de Davi acesa. Utopia e realidade fazem parte da caminhada do ser humano. O nosso propósito de vida é quase sempre diferente do modo como direcionamos nossos passos. Por isso, a vida precisa sempre de sonhos para caminhar. A experiência tribal, narrada no livro dos Juízes, permanecerá sempre como uma utopia para nós. Realidade ou não, o que importa é o sonho, acalentado por uma lâmpada sempre acessa. Deus, qual outro deuteronomista, também saberá analisar a nossa história, inventada no papel, até mesmo bíblico, mas vivida no dia-a-dia de um mundo, ainda hoje com uma memória histórica curta. Ah!, disto não podemos culpar o deuteronomista.

5- Inventar uma história não é o problema. A Bíblia está cheia desse tipo de história. A questão, no entanto, é fazer com que essa história, tirada a limpo, continue como alimento para a fé. Todos nossos necessitamos de utopias para viver.

4- Bibliografia para o estudo do livro e período dos Juizes

BRENNER Athalya. Juízes a partir de uma leitura de gênero. São Paulo: Paulinas, 2001.

FARIA, Jacir de Freitas (org). História de Israel e as pesquisas mais recentes. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2004.

GOTTWALD, Norman K. As tribos de Javé. Uma sociologia da Religião de Israel liberto 1250-1050 a. C. São Paulo: Paulinas, 1986.

LAMADRID, Antônio González. As tradições históricas de Israel. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 60-69.

LIVERANI, Mario. Oltre la Bibbia. Storia antica di Israele. Roma: Ed. Laterza, 2004.

SAB. As famílias se organizam em busca de sobrevivência.Perído Tribal.3ª ed. São Paulo: Paulinas, 2003.

STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro dos Juízes. São Paulo: Paulinas, 1992.

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OBS: Este artigo está publicado na Revista Estudos Bíblicos, Petrópolis: Vozes, p. 3737-45. Neste número você encontrará vários artigos sobre a Obra histórica Deuteronomista.

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Presença de Frei Jacir nas Mídias Sociais

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze.

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