“Amar como Jesus amou”

Por Hermes Fernandes

A canção de Pe. Zezinho, mesmo em meio a tanta simplicidade, nos ensina muito mais do que se pode perceber sob uma audição distraída. Penso ser quase que como um tratado sobre o bem viver. E bem viver cristão.

Esta canção fala de uma criança que se dirigindo ao interlocutor, pergunta o que é preciso para ser feliz. Pe. Zezinho começa seu roteiro de busca pela felicidade por “amar como Jesus amou”. E simplicissimamente vai dando sentido à vida a partir de coisas simples, porém, inquestionáveis enquanto caminho para a felicidade. Outrossim, percebemos estar ausentes deste roteiro temas muito comuns em nossos discursos atuais na Igreja e Sociedade. O roteiro de Pe. Zezinho para a felicidade fala do elementar da mensagem cristã.

Hoje não é incomum vermos pregadores e pensadores cristãos nos saturar de palavras de ordem. Quase que nos sentimos constantemente impelidos ao conflito. Os problemas sociais, ignorados por uns, são tratados como única missão do viver cristão, por outros. Primeiramente, lembro que a palavra conflito não combina em nada com o viver cristão. Segundo, na Igreja não pode haver lugar para a pedagogia do ódio. Os problemas sociais devem, é claro, estar na pauta da reflexão e do discurso cristão. Os Evangelhos nos instruem e nos exortam a um mundo mais justo. Sem desigualdades, discriminações, marginalização. Outrossim, também nos diz que devemos promover a paz, viver em concórdia e cultivar o amor fraterno.

Ontem, dia Primeiro de Maio, estive lendo alguns textos sobre o Dia do Trabalho e São José. Fui tomado de um imenso desconforto. Mesmo que alguns falassem a partir do Evangelho e da devoção ao Carpinteiro de Nazaré, mais parecia um convite à guerra! Da devoção, foi retirada a espiritualidade. Do Evangelho, o essencial dos ensinamentos de Jesus: o amor!

Penso ser legítima a crítica de alguns de nossos irmãos e irmãs sobre certa alienação de consciências na pregação e teologia de outros nossos irmãos e irmãs. De fato, é preciso estar conscientes de que não fazemos pastoral para os anjos. Estes, contemplam Deus face a face. Ao contrário, fazemos pastoral para os homens. Homens e mulheres que, muitas vezes, vivem cruzando um vale de lágrimas. Desemprego, carências diversas, tais como: moradia digna, pão, saúde etc. Fato é que somos, a cada instante, provocados pelo convite à uma Igreja Samaritana. Postarmo-nos na vida destes nossos irmãos e irmãs como amparo e bálsamo para suas feridas.

Aos problemas sociais, é preciso ação solidária e profecia. Faz-se mister o equilíbrio entre estes dois imperativos. Lamentavelmente, muitos de nossos irmãos e irmãs, se apegam a um, esquecendo o outro. Ou se dedicam somente à caridade, ou só à profecia. Aqui há um problema. Caridade sem desejo de mudança de realidade é assistencialismo. Este mantem sempre o pobre na condição de pobre. Profecia, denúncia, sem atos concretos de solidariedade se faz demagogia. Há pregadores e pensadores cristãos que mais parecem políticos em tempo de eleição. Denunciam as injustiças sociais, mas não se comprometem. São como aqueles que juram amor, sem amar.

Destes paradoxos, nascem os conflitos no viver eclesial. Aqueles que dividem a Igreja entre espiritualista e ativista. Ambas as posturas são profícuas e necessárias. São Bento de Núrsia (480-547 E.C), nos ensinou por um binômio a fórmula mais eficaz do viver cristão. “Ora et Labora!” Reze e trabalhe! Sim, meu irmão e minha irmã! Devemos ser ativos e contemplativos. Se nos prendemos no Tabor, deslumbrados com a beleza do Cristo Transfigurado, esquecemo-nos da multidão de miseráveis que aguarda aos pés do monte. Famintos de Pão e Deus. Aqui sublinho: Pão e Deus.

O contrário, também não podemos nos prender exclusivamente ao Jesus Histórico e, como zelotes, entendê-lo como um messias político, revolucionário contra os poderes totalitários. As multidões de empobrecidos não querem só pão. Querem Deus, Esperança que não se frustra. Como nos diz ainda Pe. Zezinho: Amor que nunca morre. Jesus é esperança para os empobrecidos. Esperança de vida plena. Isto significa muito mais do que um discurso político, assim como nos ensina Ivo Storniolo, em seu livro: Como ler o Evangelho de Lucas. O Messias é muito mais do que um Libertador Sócio-Político. É um restaurador da plenitude da vida humana. Em todos os sentidos. Inclusive, social e político.

E quando esvaziamos nosso discurso de espiritualidade, de mística, nos tornamos semeadores da Boa-Nova, sem Evangelho. Neste discurso exclusivamente social, não há lugar para muitos dos imperativos de Jesus, tais como: “amai seus inimigos, ofereça a outra face, a quem lhe tomar o manto, dê-lhe também sua túnica…” É um Cristianismo, sem Cristo. Pois tudo que fala de amor, perdão sem medida, amizade sem julgamento de virtudes; cai no bojo da metáfora. Mantendo como concreto e urgente, o material. Quando Justiça Social tiver mais importância do que amor fraterno, é sinal de que quem anuncia esta Justiça, não o faz a partir do Evangelho. Pode ser líder de muitas coisas, mas não é líder eclesial. A Igreja reproduz o discurso de Jesus. O contrário a ele, não a pertence.

Anunciar justiça, sem amor aos injustos; declarando guerra a eles, pode parecer coerente para a política, mas não o é para o caminho cristão. Até mesmo Santo Oscar Romero, que tombou assassinado pelos Poderes Totalitários, disse que perdoava os poderes assassinos e os amava. Absolveu aqueles que o matariam no futuro. Exemplo concreto de seguimento de Jesus. “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,32).

Quem não quer “amar como Jesus amou”, não pode se dizer discípulo dele. Quem esvazia o cristianismo do Cristo, é opositor de Jesus e não seu seguidor. Quem não se preocupa com os empobrecidos, não vive concomitante com o Evangelho. Quem prega justiça sem amor e perdão, também não está anunciando e vivendo o Evangelho. É preciso rezar e trabalhar pelo Reino de Deus. Unir o Tabor com o Getsêmani. Sem extremos, sem radicalismos. Os radicais e seus discursos, são tóxicos e desnecessários à Igreja de Jesus.

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