O Senhor Ama Seu Povo

“O Senhor ama seu povo e coroa com a vitória os humildes” (Sl 149, 4).

Reflexão sobre Davi e Golias – 1Sm 17

Por Dom João Batista Buss, OSB
 

A presença do inimigo em nossa vida cristã não depende de nossa escolha ou de nossa vontade. Inevitavelmente devemos nos confrontar com o inimigo. Penso que Deus permite o surgimento de inimigos em nossa vida para nos colocar em um caminho de humildade. Nesse sentido, o capítulo dezessete do primeiro Livro de Samuel, é paradigmático. Ou seja, é um modelo onde podemos nos encaixar. Ou então, se for preferível, um espelho onde podemos ver nosso reflexo. Podemos ver nesta página da Sagrada Escritura o paradigma do inimigo e do orgulho e também o paradigma da humildade e da vitória sobre o inimigo.

Nesta nossa leitura do episódio de Davi e Golias buscamos o sentido espiritual profundo do texto não a partir de seu sentido histórico. O seu valor é inegável, mas, optamos por entrar no texto por uma porta bem específica: a humildade. Esta é, portanto, a chave com a qual queremos abrir o texto sagrado para uma leitura espiritual-cristológica.

O grande guerreiro dos filisteus, Golias, é para nós paradigma do inimigo. Todos nós, inevitavelmente, nos deparamos com um Golias em nossa caminhada de vida cristã. Quando Golias aparece em nosso caminho tem sempre características bem definidas.O texto sagrado começa descrever Golias dizendo que “sua estatura era de seis côvados e um palmo” (1Sm 17, 4). Segundo a nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém, a estatura do filisteu Golias é de quase três metros. Portanto, seu tamanho é gigantesco. Golias é enorme. Esta é a primeira característica de um Golias. Ele sempre é muito grande.

Em seguida, o autor sagrado descreve como Golias estava revestido para luta: “Cobria a cabeça com um capacete de bronze, vestia uma couraça de escamas, que pesava cinco mil siclos de bronze, e trazia as pernas protegidas por perneiras de bronze, e um escudo de bronze entre os ombros. A haste de sua lança era como uma travessa de tecelão, e a ponta de sua lança pesava seiscentos siclos de ferro.” (1Sm 17, 5). Muito bem armado e protegido. Armado até os dentes, como se costuma dizer. Pronto para partir para agressão e para defender-se de possíveis golpes. Essa é a segunda característica que infalivelmente um Golias possui: armado para agredir e preparado para receber agressões. Golias faz da violência, como diz o salmista, uma veste que o envolve (Sl 72, 6).

Golias, além de grande e bem armado, possui uma curiosa característica: A sua frente marchava o escudeiro. (1Sm 17, 7c). Um Golias sempre tem alguém que o quer proteger. Essa é sua terceira característica. Ele sempre tem um escudeiro, pois um Golias sempre quer ser intocável. Apesar de grandalhão, tem sempre a necessidade de se esconder atrás de alguém. E sempre há quem goste de fazer o papel de fiel escudeiro dos Golias da vida.

Ciente de seu tamanho, confiante em suas armas e seguro por sua proteção, um Golias é sempre desafiador: “Estacou perante as linhas de Israel e gritou: Por que saístes para travar batalha? Não sou eu filisteu e vós servos de Saul? Escolhei entre vós um homem, e venha ele competir comigo…” (1Sm 17, 8s). O inimigo sempre nos provoca. Aliás, ele é perito na arte da provocação: “Lanço hoje um desafio às fileiras de Israel”. (1Sm 17,10). Gostar de uma briga é também característica peculiar de Golias.

Assim nos é apresentado Golias, o protótipo do inimigo: Grande, armado, intocável e desafiador. São estas as características próprias de Golias, o inimigo. O verdadeiro protótipo do orgulhoso.

Em seguida o texto nos apresenta a figura de Davi. Diz o texto que Jessé, seu pai, tinha oito filhos. Os três mais velhos tinham ido embora para servir Saul. Eles se chamavam Eliab, Abinadad e Sama. Davi era o mais novo. Esta é a primeira característica de Davi: ele é o último. Por isso vemos em Davi o protótipo do humilde e do pequeno. No início da Sagrada Escritura aparece a preferência de Deus pelos últimos. Abel, que foi assassinado por seu irmão Caim, era o mais novo. Abraão teve dois filhos, Ismael foi o primeiro e Isaac o último. Jacó, cujo nome foi mudado para Israel, veio depois de Esaú. De seu filho José, a Sagrada Escritura diz que foi colocado com sua mãe por último (Gn 33, 2). Estes são exemplos claros da predileção de Deus pelos últimos. Também Davi era o último dos filhos de Jessé. Ele, o último, foi escolhido por Deus que não considerou a elevada estatura de Eliab, pois Deus olha o coração. (1Sm 16, 6-12).

Jessé envia Davi aos seus filhos que o tinham abandonado, tinham ido embora (1Sm 17, 13). Davi foi enviado por seu pai e, porque era o último – aqui entendo último por pequeno e humilde – era capaz de obedecer. Diz o texto: “Davi levantou-se de madrugada, deixou o rebanho com um vigia, apanhou suas coisas e partiu, como lhe tinha ordenado Jessé.” (1Sm 17, 20). O pequeno Davi era obediente. Esta é sua segunda característica. Penso que este é um detalhe do texto que não pode passar despercebido: capacidade de obediência exige pequenez. Obviamente que não se trata daquela pequenez que significa mediocridade ou vileza, mas que significa a grandeza da humildade. O pequeno, o último, é capaz de obedecer.

Com estas duas primeiras características de Davi já podemos perceber que ele prefigura o Cristo, que tendo sido enviado pelo Pai, se humilhou e se fez obediente até a morte (Fl 2, 8).

Porque é pequeno e humilde, Davi é capaz de suportar o menosprezo e a incompreensão por parte de seus irmãos. Aliás, torna-se humilde aquele que suporta com paciência as humilhações que sofre. Assim diz o texto: “Eliab se indignou contra Davi e disse: ‘Porque afinal desceste? E com quem deixastes aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua insolência e a malícia do teu coração: viestes para assistir à batalha?’” (1Sm 17, 28). Davi foi enviado por seu pai Jessé a seus irmãos, porém, seus irmãos não o acolheram. Aqui Davi também prefigura o Cristo que, tendo sido enviado pelo Pai, “veio para o que era seu e os seus não o receberam” (Jo 1, 11). Portanto, o pequeno Davi, figura de Cristo, era capaz de suportar desprezo, rejeição e incompreensão. Esta é sua terceira característica.

Os irmãos maiores de Davi – como Eliab de elevada estatura (1Sm 16,7) – bem como Saul – que “dos ombros para cima sobressaia a todo o povo” (1Sm 10, 23) – corriam apavorados diante do filisteu Golias (1Sm 17, 11.24). Mas Davi, pequeno e menosprezado, não o temia. Enquanto que os maiores correm apavorados de medo, o pequeno e último, aceita o desafio do inimigo. Assim diz Davi para Saul: “Que ninguém perca a coragem por causa dele. O teu servo irá lutar com esse filisteu.” (1Sm 17, 32). Portanto, ser humilde e pequeno não significa fugir diante do desafio do inimigo. Davi não tem medo do filisteu Golias. O medo impedia que os irmãos mais velhos de Davi e o rei Saul levassem a termo a luta contra o inimigo.

“Saul respondeu a Davi: ‘Tu não poderás ir contra esse filisteu para lutar com ele porque não passas de uma criança e ele é um guerreiro desde a sua juventude”. (1Sm 17, 33). Esta resposta de Saul, com tom de desprezo e desdém, é na verdade um elogio à Davi. Aquilo que Saul vê como incapacidade para enfrentar o inimigo é exigência de Jesus para entrar no Reino dos Céus: “se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus.” (Mt 18, 3-4). Davi pôde enfrentar Golias justamente por ser uma criança. Porém, isso era incompreensível para aquele que “dos ombros para cima sobressaia a todo o povo” (1Sm 10, 23).

Se Golias era guerreiro desde a sua juventude, ou seja, acostumado e treinado no uso das armas, Davi, ao contrário, estava treinado em outro tipo de combate. Eis a resposta de Davi a Saul: “Quanto teu servo apascentava as ovelhas de seu pai e aparecia um leão ou um urso que arrebatava uma ovelha do rebanho, eu o perseguia e o atacava e arrancava a ovelha de sua goela” (1Sm 17, 34). O último dos filhos de Jessé era pastor. Como pastor estava treinado no combate da misericórdia. “Qual de vós, tendo cem ovelhas e perde uma, não abandona as noventa e nove no deserto e vai em busca daquela que se perdeu, até encontrá-la?” (Lc 15, 4). Davi fazia isso. Ele procurava a ovelha perdida. Era neste combate que estava treinado. “O vosso adversário, o diabo, vos rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar.” (1Pd 5, 8-9). Quando o leão procurava devorar uma das ovelhas de seu pai, Davi, pequeno e humilde, arrancava-a de sua goela. Era uma criança capaz de ir à goela do leão para salvar uma de suas ovelhas. O pequeno pastor, Davi, prefigura o Cristo Bom Pastor.

Diante desta resposta de Davi, Saul cede e lhe diz o mesmo que o anjo do Senhor havia dito a Gedeão (Jui 6, 12) e que disse à Virgem Maria (Lc 1, 28): “O Senhor esteja contigo”. E Saul o disse acertadamente. O Senhor, de fato, esteve com Gedeão e o chamou para salvar seu povo, porque ele era da última das tribos de Judá e o último da casa de seu pai (Jui 6, 14-15). O Senhor estava com a Virgem Maria porque ela era humilde e pequena. Portanto, o Senhor está com Davi porque é, como Gedeão, da última das cidades de Judá (Mq 5, 1), o último da casa de seu pai, e também humilde, obediente e sem medo (Lc 1, 30) como também o foi a Virgem Maria.

 Saul tenta, então, convencer Davi a lutar com Golias de determinada forma. Quer que o pequeno e humilde, revista-se com a sua roupa de combate. “Saul vestiu Davi com as sua roupa de combate, meteu-lhe na cabeça um capacete de bronze, e o fez envergar uma couraça. Cingiu Davi com a espada de Saul sobre a roupa.” (1Sm 17, 38-39). Porém, estas são as mesmas armas que Golias portava. Ou seja, Saul pensa ser preciso tornar-se como Golias para poder vencê-lo. Era assim que tentava combatê-lo. Mas Davi, criança, não estava acostumado a usar estas armas. “Davi tentou andar, mas, porque nunca tivera aquela experiência, disse a Saul: ‘Não posso andar com isto, porque não estou treinado.’”. (1Sm 17, 39). Davi é o oposto de Golias, e por isso não pode usar as mesmas armas que ele. As armas do humilde não são as mesmas armas do orgulhoso. As armas do orgulhoso Golias impedem os filhos de Israel de caminhar. Saul não conseguia a vitória sobre o inimigo Golias porque se revestia com as mesmas armas que ele. Davi, pelo contrário, pode vencer Golias, porque renuncia a ser como ele. Esta é uma característica peculiar do último dos filhos de Jessé: não pagar o mal com o mal (Rom 12, 17). As armas de Golias são as armas do mal. Davi não está acostumado a usá-las porque é pequeno e humilde, é o último. Se Davi treinasse, com certeza, se tornaria perito nas armas do mal, ficaria grande. Mas, “Davi se desembaraçou delas” (1Sm 17, 39). Ele é pequeno, não tem “pretensões de grandeza” (Rom 12, 16) e não quer pagar o mal com o mal, mas quer ser vencedor do mal com o bem (Rom 12, 21). Este é o primeiro passo para enfrentar o inimigo: a consciente e deliberada decisão de renunciar a revestir-se com as mesmas armas de Golias.

Portanto, a luta contra Golias é interior. Nós vencemos Golias quando deixamos de ser Golias para os outros. Para isso é necessário fazer como Davi. Renunciando a se tornar outro Golias, Davi busca outras armas. Porque é pastor treinado no combate da misericórdia, ou seja, em buscar a ovelha perdida na goela do leão, ele “tomou na mão seu cajado” (1Sm 17, 40). Recusando a portar as mesmas armas que Golias, Davi porta seu cajado de pastor. Em seguida, “Escolheu no riacho cinco pedras bem lisas e as pôs no seu bornal de pastor, o seu surrão, depois apanhou a sua funda e avançou contra o filisteu.” (1Sm 17, 40). Pedras lisas são aquelas que perderam as asperezas e as arestas pontiagudas. E Davi sabe muito bem onde encontrá-las: no riacho. Na água as pedras tornaram-se lisas com o tempo, perderam a aspereza, as arestas e as pontas. São pedras que não ofendem. É na água da liturgia da Igreja (sacramentos) que as nossas pedras alisam-se. Isso equivale a tornar-se humilde. Humilde é quem deixou as águas da Igreja alisar sua aspereza. O humilde não áspero, nem pontiagudo.

Davi, ao tomar seu cajado de pastor e as cinco pedras lisas está revestindo-se de humildade para enfrentar Golias. Como diz o Apóstolo São Pedro: “Revesti-vos todos de humildade em vossas relações mútuas, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (1Pd 5, 5). O Apóstolo São Paulo descreve detalhadamente como os eleitos de Deus devem se revestir: “Revesti-vos de sentimentos de compaixão, de bondade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se alguém tem motivo de queixa contra o outro; como o Senhor vos perdoou, assim também fazei vós. Mas sobre tudo isso, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição.” (Cl 3, 12-14). Revestir-se com todas estas virtudes significa levar no bornal pedras lisas.

Quando o filisteu Golias vê Davi, o menospreza (1Sm 17, 42). Davi foi menosprezado por sua principal característica: a beleza da pequenez. “Assim que o viu o menosprezou, porque era jovem – era ruivo e de bela aparência.” (1 Sm 17, 42). Para o filisteu Golias a bela pequenez de Davi era digna de menosprezo. Porque não tem fé, Golias não vê força alguma na beleza da humildade. Por causa de seu cajado de pastor, Davi foi amaldiçoado: “sou por acaso um cão, para que venhas ter comigo com paus?, e o filisteu amaldiçoou Davi…” (1Sm 17, 43). Do ponto de vista de Golias, Davi estava desarmado para lutar com ele.

Mas, Golias não pode ver a principal arma. Viu apenas o cajado. As pedras lisas estavam escondidas no bornal. São virtudes interiores que não são vistas por quem não as conhece e que não tem fé. O texto não diz, mas Golias não estava treinado em portar pedras lisas. Aliás, nem sequer possuía bornal. Não tinha nada mais do que tamanho, característica exterior, superficial e rasa. Possui pedras lisas quem sabe recolhê-las na água do riacho da Igreja e guardá-las no bornal, no surrão do coração. Davi era um humilde com profunda vida interior. Por isso responde a Golias com segurança: “Tu vens contra mim com espada, lança e escudo; eu, porém, venho a ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, que desafiastes…” (1Sm 17, 45). Davi não foi ter com Golias com paus. Ele foi revestido “da armadura de Deus” (Ef, 6, 11). O Apóstolo São Paulo nos diz como revestir-se com a armadura de Deus: “cingi os vossos rins com a verdade e revesti-vos da couraça da justiça e calçai os vossos pés com a preparação do Evangelho da paz, empunhando sempre o escudo da fé, com o qual podeis extinguir os dardos inflamados do Maligno. E tomai o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.” (Ef, 6, 14, 17).

Revestido com a armadura de Deus, Davi, sabe quem é que concede a vitória, por isso diz a Golias: “Toda terra saberá que há um Deus em Israel, e toda esta assembleia conhecerá que não é pela espada nem pela lança que o Senhor concede a vitória, porque Deus é o Senhor da batalha e ele vos entregará em nossas mãos.” (1Sm 17, 46-47). A vitória no combate contra o inimigo é concedida por Deus porque “o Senhor Deus é o amparo dos humildes, mas dobra até ao chão os que são ímpios” (Sl 146, 6).

Uma única pedra foi suficiente para vencer o gigante Golias: “Davi pôs a mão no seu bornal, apanhou uma pedra que lançou com a funda e atingiu o filisteu na fronte; a pedra se cravou na sua testa e ele caiu com o rosto no chão.” (1Sm 17, 49). O que parecia ser um tremendo combate teve um desfecho simples e rápido. A vitória foi concedida àquele que não tinha espada nas mãos: “Não havia espada nas mãos de Davi. Davi correu, pôs o pé sobre o filisteu, apanhou-lhe a espada, tirou-a da bainha e a cravou no filisteu e, com ela, decepou-lhe a cabeça.” (1Sm 17, 50-51). Assim Golias morreu pela sua própria espada. Golias foi medido com a mesma medida que usava para os outros. “Com a medida que medis será medido para vós, e vos será acrescentado ainda mais.” (Mc 4, 24). Sua espada foi um bumerangue.

Assim o gigante caiu por terra, o pequeno venceu o grande. O orgulho só é vencido com as pedras lisas da humildade. Golias está dentro de nós. É no íntimo do coração que acontece a luta entre Golias e Davi, orgulho e humildade. Quem vence no final já sabemos, pois o paradigma nos mostra. Tendo esta consciência, trata-se de uma questão de escolha. Aquela porta estreita que leva para a vida (Mt 7, 13-14), exige pequenez.

“Preservai o vosso servo do orgulho: não domine sobre mim! E assim puro eu serei preservado dos delitos mais perversos.” (Sl 18, 14).

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Abadia da Ressurreição

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