A Discrição Beneditina como Referência para a Vida e Liturgia Cristã

Por Hermes Fernandes &
Karina Moreti

Segundo o dicionário Aurélio, discrição é um substantivo feminino que designa aquele que age com decoro, modéstia, que não deseja chamar a atenção. Segundo o mesmo Aurélio, beneditino é o religioso, monge ou manja, que pertence à Ordem de São Bento, fundada no Século VI, na Itália. Com sua célebre Regra de Vida para os monges e monjas, preceituava como proposta de vida religiosa consagrada a pobreza, a virgindade, a obediência, a oração e o trabalho, bem como a obrigação de hospedar peregrinos e viajantes em seus mosteiros, dar assistência aos pobres e promover o ensino. Por este último motivo, ao lado dos seus mosteiros, havia sempre uma escola. Razão pela qual a ordem tornou-se um dos centros culturais da Idade Média, com as suas bibliotecas reunindo o que restara das obras e ensinamentos da Antiguidade. É dos beneditinos, antes mesmo das ordens mendicantes, a iniciativa de se promover uma assistência efetiva e organizada aos empobrecidos. Os historiadores afirmam que, no contexto medieval, não era incomum cidades nascerem ao redor dos mosteiros, pois neles se encontravam segurança e amparo. De fato, a Ordem de São Bento se tornou milenar referência do ser Igreja.

Quem já visitou um mosteiro beneditino em nossos dias, sabe o quanto a liturgia, nesses ambientes revestidos do sagrado, é testemunho de seriedade e dedicação. Importa aqui perceber o que podemos inferir da palavra seriedade. Mais que a beleza do canto gregoriano, do espaço sagrado, destaca-se a busca do verdadeiro sentido da liturgia que se celebra. Os monges e monjas, filhos e filhas de São Bento, buscam viver o cristianismo de forma revestida de radicalidade, sem perder temperança.

“Perseveravam eles na doutrina dos Apóstolos, na comunhão,
na fração do pão e nas orações” (At 2, 42).  

Dentro deste preceito de viver em radicalidade a vida cristã, se insere o zelo beneditino pela Liturgia. Sem nostalgias, nem voltas a um passado romântico, os mosteiros estiveram na vanguarda do movimento litúrgico e, em linha com ele, deverão continuar sendo lugares onde se celebra e se vive a liturgia de hoje, com o espírito de sempre. Ao monge e à monja, importa integrar a vivência dos mistérios litúrgicos ao próprio mistério da vida. Quando São Bento elaborou o binômio Ora et Labora, Reze e Trabalhe, como símbolo do jeito de ser e viver dos beneditinos, compreendia que a liturgia abrigava em si o próprio mistério da vida em celebração. Neste sentido, a Liturgia para o monde é uma extensão – em rito – do que se vive, por vocação.

Este celebrar da vida que se vive não possibilita o extraordinário, o inovativo, o exibicionismo em si. Em uma abadia beneditina, ao participar de uma liturgia que lá se celebra, há de se encontrar o amor ao Cristo como critério fundamental em tudo o que se faz. A propósito, o próprio São Bento exorta que o monge nada deve antepor ao amor ao Cristo. “Nihil amori Christi praeponere” (cf. RB 4,21). É neste sentido que encontramos nas liturgias beneditinas o zelo pelo espaço sagrado, a aplicação no gestual, valorização do simbólico que a Liturgia da Igreja nos oferece, os cantos litúrgicos priorizando o mistério que se celebra. Não vamos encontrar exageros na decoração, cantos gritados, acompanhados de instrumentos barulhentos (como se o animador da liturgia fosse um cantor a dar seu show), vestes litúrgicas revestidas do luxo, ofuscando o centro do que se celebra: o Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo!

A Música Litúrgica tem o papel pedagógico de levar a comunidade celebrante a penetrar sempre mais profundamente o Mistério de Cristo (MLB, n. 350).[1]

Há aqui o que também se deve acrescentar como negativo e não encontramos nos mosteiros: a instrumentalização litúrgica. A inculturação, a atualização dos textos bíblicos da liturgia da palavra; não podem ser argumento a se justificar o uso da liturgia para defesa de causas particulares, divergentes às Diretrizes das Conferências Episcopais, assim como, ao magistério pontifício. A Liturgia celebra o Ministério e Mistério de Jesus, não os nossos. Aqui, vale – mais uma vez – a exortação de São Bento de nada estar acima do nosso amor ao Cristo. Claro que essa nossa observação não se refere ao trazer da realidade em que se vive na homilia[2]. Como o próprio São Bento se inspirou no Ora et Labora, a Liturgia celebra a vida, seus louvores e suas nênias. O que nos ensinam os beneditinos, com seu testemunho de vida, é que se pode encontrar equilíbrio entre a vida que se vive e o sagrado que se celebra. Sem que um anule o outro. A celebração da Sagrada Eucaristia pode ser um religare humano entre o imanente e o transcendente, sem cair na alienação ou dessacralização[3]. A discrição beneditina, o decoro celebrativo que podemos inferir em suas liturgias; testemunham que o Belo e o Bem se abraçam, quando do se celebrar do Mistério[4].

Ainda vale sublinhar, entre as virtudes litúrgicas beneditinas, a valorização dos ministérios. Os monges e monjas se revestem de zelo, fruto do amor primordial ao Cristo, em todas as funções exercidas na celebração litúrgica. Quer sejam leitores, acólitos, diáconos, presbíteros; todos estão imbuídos de sentimento de reverência amorosa. Com isso, ninguém busca se sobressair na liturgia. Não buscam exibicionismos. Vestem-se discretamente, cantam como coletivo – sem estrelismos – vivem a liturgia como se nada mais importasse naquele momento, exceto o Cristo. Exemplo para todas comunidades cristãs.

Que possamos aprender de nossos irmãos monges e monjas, filhos de São Bento, a fazer de nossas celebrações litúrgicas um verdadeiro memorial da fé e da vida. Nada antepondo ao amor ao Cristo.

__________
Imagens: Abadia da Ressurreição
[1] MLB, n. 350 – A música litúrgica no Brasil, Estudos da CNBB, nº 79, 1998.
[2] cf. SC, n. 52-53 – Sacrosanctum Concilium, Constituição do Concílio Vaticano II, sobre a Sagrada Liturgia, 1963.
[3] SC, n. 2
[4] SC, n. 5, §2

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