“Ele tomou sobre si nossas dores” (Is 53,4b): Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Por Hermes Fernandes

“Da descendência de Davi, conforme havia prometido, Deus fez surgir um salvador, que é Jesus. (…) Os habitantes de Jerusalém e seus chefes não o reconheceram e, ao condená-lo, cumpriu-se a profecia…” (At 13, 23. 27a)

Estava escrito. O Messias que nos foi enviado, deveria tomar sobre si nossas dores, sarar nossas enfermidades por suas chagas, redimir a humanidade por seu sacrifício voluntário (cf. Is 53,4-5). A cada Ano Litúrgico, a Igreja faz memória da Paixão de Jesus. Sua morte de Cruz, sustentáculo do Mistério Pascal, faz morrer em nós a mancha do pecado original, redimindo-nos da condição de criaturas, resgatando-nos a imagem divina que nos foi incrustrada, transcendendo-nos à condição de filhos de Deus. Com a morte de Jesus, encerra-se em nós a morte eterna, abrindo-nos à Vida Plena.

A Cruz de Cristo, escândalo para os judeus e loucura para os gentios (cf. 1Cor 1,23), é para nós sinal de esperança e transformação. Pela morte de Nosso Senhor, somos convidados à Vida que ele inaugura. Que Vida é essa?

Somos compelidos a entender que a promessa da Vida Eterna está para nós como que um horizonte escatológico, quando da volta de Jesus, a parusia. De fato, assim o é. Outrossim, antes de que sejam restauradas todas as coisas, somos convidados – enquanto Corpo Místico de Jesus, sua Igreja – a fazer da proposta do Reino de Deus, nosso jeito de ser e viver. Seria como que se vivêssemos em ensaio, o que se realizará na plenitude futura. Não nos basta ficar à espera de que o Filho de Deus retorne e instaure seu Reino. Assim como nos ensina a Parábola das Virgens Prudentes (cf. Mt 25,1-13), há que se manter a chama acesa, à espera do noivo. Estamos à espera deste noivo. Do Banquete do Reino. Este manter acesas as chamas, vem nos significar a continuidade do ministério de Jesus, anunciando sua Boa-nova, construindo relações fraternas concomitantes com as propostas do Evangelho, buscando o Reino de Deus e sua Justiça (cf. Mt, 6,33). É neste sentido que devemos entender a Morte de Jesus na Cruz. Fim de seu Ministério terreno, início do nosso!

O Evangelista Lucas, o qual lemos na íntegra neste Ano Litúrgico, nos apresenta de forma muito simples a Paixão do Senhor. Sua obra traz forte influência da literatura profética, sobretudo Isaías. Por isso, seu relato sobre morte de Jesus apresenta sinais típicos da corrente profética para anunciar o dia de Javé, sendo eles: escuridão, sol que pára de brilhar etc (cf. Am 8,9-10; Jl 2,10; 3,3-4; Sf 1,15). Entre essas figuras de linguagem, lemos que a cortina do santuário se rasga. Isto vem nos significar que Deus não está mais encerrado no Templo, mas presente e em ação, onde se der testemunho de Jesus. Com a morte de Jesus, a salvação se faz possível a todo aquele que nele crer. Não necessariamente vinculada às origens étnicas, condição social, gênero. A todos e todas vem a redenção. A Carta de São Paulo aos Romanos irá nos dizer que a salvação será dada a todo aquele que confessar Jesus como seu Salvador (cf. Rm 10,9). É mantendo acesas as chamas das lâmpadas, como nos ensina a Parábola das Virgens Prudentes. É fazendo do Evangelho carne, em nossa própria carne.

Ao vivenciarmos a celebração da Paixão de Jesus, importa que renovemos em nossos corações a certeza de que nele e com ele somos novas criaturas. Gente nova, deseja um mundo novo. Neste sentido, precisamos vencer as fronteiras de nosso coração, indo sempre em direção ao outro. Na dinâmica do encontro daqueles que se sentem abandonados. Sendo presença viva de Jesus aqui e agora. Amando sempre, perdoando sempre, colocando-nos, sempre, ao lado dos mais fracos. A morte de Jesus faz morrer em nós a fraqueza humana. Esse empoderamento transcendente não permite omissão diante de tantas situações vexatórias, ameaçando a dignidade humana. Aquele que toma sobre si a Cruz de Jesus, participa de seu projeto salvador. Essa salvação não se resume ao Último Dia. Pede-nos compromisso com o hoje. Com os que nos cercam. Sobretudo, os sofredores. Nada adianta adorar ao Cristo Crucificado, sem ser reflexo dele na vida dos irmãos e irmãs que vivem às margens da vida plena, crucificados nas inúmeras fraturas sociais. Amar a Jesus crucificado, é abraçar a cruz de nossos irmãos e irmãs empobrecidos, marginalizados, explorados, esquecidos. É trazer para nossos dias e nossas vidas, os imperativos presentes na profecia de Isaías, retomada por Jesus como projeto de vida, tal qual nos apresenta o Evangelho de Lucas: “O Espirito do Senhor esta sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um Ano da Graça do Senhor” (Lc 4,18-19 || Is 61,1-2). Assim seja!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: