“Se não vos converterdes” (Lc 13,3) | Reflexão sobre o 3º Domingo da Quaresma

Reflexão do Evangelho de Lc 13,1-9

Por Karina Moreti*

Introduzindo

A Liturgia deste Terceiro Domingo da Quaresma vem nos falar sobre a paciência de Deus por nossa conversão. O calendário litúrgico nos possibilita um aprofundar reflexivo, quando consideramos que os dois domingos anteriores nos falaram sobre as tentações de Jesus e a transfiguração. O humano e o divino de Jesus dialogam nestas temáticas evangélicas e, por assim dizer, litúrgicas.

Jesus foi tentado pelos desejos de abundância, poder e prestígio. Algo pertinente ao humano. Perigoso para nosso caminhar em comunidade, no seguimento de Jesus. Posteriormente, a liturgia do domingo passado nos apresenta a união divinatória de Jesus com o Pai, manifesta na transfiguração. Uma confirmação de sua messianidade. O Messias, servo e sofredor, anunciado pelos profetas. Hoje, o evangelho que nos é apresentado na liturgia, nos fala da paciência de Deus, face à necessidade de conversão do seu povo. Precisamos, assim como Jesus, renunciar às tentações, sob as quais somos subjugados, para – com Jesus – sermos iluminados e iluminar nossas vidas e comunidades, preparando o Reino de Deus.

Convidando-nos à conversão, o ensinamento de Jesus se encontra narrado entre episódios ocorridos naquele tempo, com base nos quais, Jesus sugere a ação de Deus.

A narrativa se inicia com a informação de que Pilatos mandara matar alguns galileus que apresentavam seus sacrifícios no Templo (Lc 13,1). Este acontecimento afetou o sentimento religioso dos judeus e, o que poderia se esperar, os seguidores de Jesus. Como podem galileus fiéis e piedosos ter um fim trágico dessa maneira? Seria castigo de Deus? Perguntas que se faziam naquele tempo e continuam a ser feitas nos tempos atuais.

A resposta de Jesus exige interpretação de seus interlocutores. Ele não responde a respeito dos pecados dos falecidos, se são maiores ou menores, mas propõe olhar o evento e compreendê-lo como um apelo à conversão: “Se não vos converterdes…” (Lc 13,3). O fim pode se tornar grande fatalidade, se não encontrar um sentido de existência na comunhão de amor com Deus, nosso Pai.

Aprofundando

“Se não mudarem sua maneira de pensar, vão perecer todos do mesmo jeito” (v. 3). Duas vezes Jesus nos dá essa indicação (Vs. 3 e 4). As Bíblias comumente usadas no Brasil resolvem traduzir diferente: “Se não vos converterdes”, “se não vos arrependerdes”. Todavia, o texto grego deixa bem claro: “Se não mudardes vossa maneira de pensar”. De pensar o que? De pensar Deus. Temos que mudar nossa maneira de pensar Deus. Lucas o faz, colocando Jesus diante de realidades bem concretas. Vejamos!

A primeira realidade que chega a Jesus é a notícia de que Pilatos mandou assassinar cruelmente vários galileus no Templo de Jerusalém, enquanto celebravam sua oferta e sacrifício (v.1). O relato acrescenta ainda que o sangue desses galileus se misturou com o sangue do sacrifício oferecido. Crueldade ao extremo! Provavelmente, uma reação de Pilatos contra pessoas que ele considerava perigosas, revoltosas, subversivas. Possivelmente, um grupo de Zelotes. Mesmo o texto não tendo uma abordagem política, se sabe que o fato do sangue dos assassinados ter sido misturado ao sangue do sacrifício ritual, faz deles heróis. Obviamente, a pergunta de Jesus seria: “será que eles pecaram mais que outros galileus?” A resposta é: claro que não! Jesus vai mais fundo. Surpreende-nos com uma segunda realidade, colocando-nos diante de outro fato. Um acontecimento meramente acidental. Sem dimensão social, política ou econômica alguma. Dezoito pessoas morreram quando caiu sobre eles a torre de Siloé, em Jerusalém. Uma fatalidade, assim como no Brasil, quando tantas pessoas morreram nas enchentes que enfrentamos em fevereiro. Mais uma vez, pode-se perguntar: estes eram mais pecadores do que os outros? Por que Deus os tratou assim? Por que Deus deixou que morressem? Estas são perguntas que nos destinamos a fazer, porque na nossa cabecinha continua a ideia que sustentava toda a teologia e economia do Templo de Jerusalém. Pensavam, e ainda há quem pense, que Deus é o justo juiz. Ele nos deu uma Lei. Nossos sofrimentos são consequências de nossa rebeldia e desobediência a esta Lei. Se cumprirmos fielmente a Lei, ele vai nos garantir saúde, paz e prosperidade. Aliás, como usam essa palavra hoje em dia: prosperidade! Fala-se até em teologia da prosperidade. Se nós fizermos o mal, se não pagarmos o dízimo, se não fizermos tudo que ele manda; seremos castigados. Deus é um juiz. Ponto final! Onde está o Pai neste jeito de pensar Deus? “Se não mudardes vossa maneira de pensar, vós todos perecereis do mesmo jeito” (v. 3). Eis a resposta de Jesus.

Se nós esperarmos que a vida plena e eterna venha por nossos merecimentos, não teremos esperança alguma. A não ser que consideremos nós mesmos juízes uns dos outros. Condenando-os. Fazendo-lhes mal. Dizendo que eles não prestam e que nós somos o espelho de perfeição. Os santos e imaculados. Ah, não faz sentido! Essa lógica da retribuição por merecimentos não faz parte da pedagogia de Deus. Não funciona com Deus. Se funcionasse, todos nós estaríamos condenados. A vida é gratuidade. É Dom de Deus, ao qual, devemos responder com nosso amor. Essa é a logica do pecado e da graça. Do vício e da virtude. Nossos atos assertivos são respostas amorosas ao Dom Gratuito de Deus, não um sacrum comercium, uma permuta entre virtude e salvação. Ou pecado e condenação.

Esta dinâmica da gratuidade como Dom de Deus nos vem exemplificada por uma parábola, muito singela, contada por Jesus. A Parábola do Vinhateiro e da Figueira (Lc 13,6-8). Uma parábola exclusiva de Lucas, não está nos outros três evangelhos. Em verdade, é contrária a outros textos sinóticos, onde Jesus amaldiçoa a figueira estéril (cf. Mt, 21,18-22; Mc 11,12-14.20-25). Lembremo-nos do texto:

Um homem plantou uma vinha. A vinha é o símbolo histórico do Povo de Israel, o Povo de Deus. Junto à vinha, plantou uma figueira. Por três anos buscou frutos nessa figueira. Em vão. Nada produzia. Chamou o vinhateiro (aqui cabe lembrar que sua missão era cuidar da vinha e não da figueira), e disse que a figueira estava ocupando inutilmente a terra. Que nada produzia. Era inútil. Que a cortasse e lançasse fora. O vinhateiro vem com uma proposta: pede tempo, que se desse uma atenção especial à figueira; tratando a terra ao seu redor, adubando-a. Quem sabe para o próximo ano ela apresente frutos? E se não der frutos, mesmo assim, que então seja cortada. (cf. v. 8).

Aqui podemos ver duas atitudes: a do patrão e a do vinhateiro. Podemos ver, nestes dois personagens, duas maneiras de se pensar Deus. Deus como patrão, o qual, não vendo frutos, corta a árvore. Põe fora. E o Deus como vinhateiro, o olhar de Jesus, apresentando-o como Pai. Este, faz tudo ao seu alcance para que nós possamos dar frutos. Mesmo que precise nos oferecer seu Filho, o qual, dará sua própria vida, derramando seu sangue na Cruz.

A Palavra de Deus em nossa Vida

Qual é nossa maneira de pensar Deus? Obstinamo-nos em o ver Deus como aquele que resolve nossos problemas, conforme nosso merecimento; ou como um Pai que nos ama? Na relação com Deus, às vezes duvidamos do seu amor por nós e temos a tentação de atribuir-lhe a responsabilidade por coisas ruins que nos acontecem. Deus não faz o mal, nem age de acordo com nossos méritos, como um juiz impassível. Ele nos ama, cuida de nós como o vinhateiro da parábola, não obstante nossos pecados, nossa infertilidade diante do chamado à escuta de sua Palavra e do agir segundo as propostas do Reino. Um Pai que insiste em acreditar que nós podemos dar frutos.

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*Karina Moreti é Jornalista, bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pela UNISAGRADO – Bauru, SP e bacharelanda em Teologia, pela Universidade Católica Dom Bosco.

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