“Deixaram suas barcas na margem e o seguiram” (Lc 5,11)

Por Hermes Fernandes

Estamos no 5º Domingo do Tempo Comum. O Evangelho que nos oferece a Liturgia de hoje é Lc 5,1-11. Neste relato, temos a pesca admirável e a vocação de Pedro, Tiago e João. Está nesta perícope a célebre frase: “Não tenhas medo! A partir de hoje, serás pescador de homens!” (Lc 5,10b). Para uma leitura sinótica dos três primeiros Evangelhos, cabe elencar aqui que o texto de hoje converge com Mt 4,18-22 e Mc 1,16-20.

No início do relato, Lucas nos fala que Jesus estava às margens do Lago de Genesaré. Este Evangelista, que pertence ao mundo mediterrâneo, nunca se refere ao lago de Genesaré como mar. Ao contrário de Marcos e Mateus. Este lago tem uma importância mais religiosa do que geográfica. É nele que Jesus manifestará seu poder, quando acalma os ventos e as águas revoltas (cf. Lc 8,22-25). Estas pequenas divergências entre Lucas e os outros sinóticos nos apontam as particularidades de seu Evangelho.

Até o início do Capítulo 5 de seu Evangelho, Lucas apresenta Jesus agindo sozinho no território da Galileia. Ao contrário de Marcos, que mostra o chamado dos discípulos logo no início de sua narrativa (Mc 1,16-20). A justificativa de Lucas apresentar parte do ministério de Jesus sozinho, é pelo fato de que poderíamos ter dúvidas sobre a veracidade no relato do chamado de seus discípulos. Como se poderia seguir alguém que nada se sabe a respeito? Certamente, Lucas desejou sanar essa dificuldade, fazendo uma apresentação de Jesus e de seu mistério em narrativas anteriores. Ninguém como Lucas aborda tão apuradamente o anúncio, a infância e a vida de Jesus na Galileia. Primeiro narra o anúncio e a infância de Jesus (Lc 1,5 – 2,52), depois a preparação de seu ministério (Lc 3,1 – 4,13), em seguida, inaugura seu ministério (Lc 4, 14-19). Conta-nos, ainda, que ele ensinava nas sinagogas (Lc 4,15.31). Por fim, mostra que a fama de Jesus se espalhou pelas redondezas de sua terra natal (Lc 4, 14.37). Todos esses relatos serviram de preparação para o chamado dos primeiros discípulos. Daí para frente, vai alargar seu campo de ação, rodear-se de seguidores e constituirá apóstolos. É no sentido de Jesus congregar pessoas em torno de si, que Lucas inicia o Capítulo 5 dizendo que “a multidão apertava-se ao seu redor para ouvir a Palavra de Deus” (v. 1). Ao contrário das autoridades religiosas judaicas, Jesus dirige-se diretamente ao povo simples. O povo está sedento da Palavra de Deus. Tanto que se aperta ao redor de Jesus (Lc 5,1). Ele não poupa esforços, sobe em uma barca, afasta-se da margem para ser ouvido por todos. Afinal, as pessoas estavam perdidas, feito ovelhas sem pastor (Mt 9,36).

O Evangelista não se contenta em narrar o chamado de Jesus aos discípulos e a resposta a ele. Narra como que por uma projeção histórica do que será a missão apostólica da Igreja. Cabe aqui lembrar que o Evangelho de Lucas é a primeira parte da obra lucana. A segunda é Atos dos Apóstolos, continuando a ação evangelizadora por meio dos discípulos e da Igreja Primitiva. Por isso, Lucas gosta de dar um trato apurado em sua narrativa da vocação dos discípulos. Não lhe é próprio o relato sucinto. Sente necessidade de aprofundar o sentido de todas as coisas. Assim, a narrativa da vocação dos discípulos deve estar inserida no próprio Mistério que se abriga na pessoa de Jesus. Para fundamentar esse Mistério, nada mais apropriado do que sinais, fatos notáveis, milagres. É neste contexto que se insere a pesca milagrosa que temos na narrativa (Lc 5,4-7).

Em um segundo momento na narrativa do texto evangélico de hoje, observemos o relato da já mencionada pesca milagrosa. Toda a cena é simbólica. Depois de ensinar às multidões, pede a Simão que avance lago adentro e lance as redes. Toda palavra anunciada infere atitudes consequentes. Como muitas vezes em nossas comunidades, a Palavra de Deus nos é difícil de aplicar na prática. Sempre encontramos subterfúgios do impossível. Por isso, Simão diz que já haviam pelejado a noite inteira, mas nada pescaram. “Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes” (Lc 5,5b). Para a surpresa de todos, na hora já considerada imprópria à pescaria, conseguiram pegar tantos peixes que as redes quase se rompiam. Precisaram pedir ajuda aos companheiros de profissão (Tiago e João, filhos de Zebedeu). E ambas as barcas ficaram repletas de pesca, a ponto de quase afundarem.

É claro que precisamos, como já o dizemos, entender essa pescaria inesperada de forma simbólica! É resultado do ensinamento de Jesus às multidões. Jesus anunciou a Palavra de Deus, a “Boa Notícia” do Evangelho. Simão diz “em atenção à sua Palavra”. Isso vem nos significar que a Palavra do Evangelho faz ter sucesso todo empreendimento, toda dificuldade. Mesmo que as circunstâncias pareçam contrárias.

Em nossas comunidades, não são poucos os momentos em que acreditamos ser impossível esse ou aquele intento. Assim como Pedro, é preciso crer na Palavra anunciada, na Boa Notícia que nos vem do Evangelho. A fartura resultante da escuta da palavra não vem nos significar algo como que a reciprocidade ou teologia da retribuição. Não é recompensa à fidelidade. Toda relação com Deus se fundamenta na gratuidade. Entretanto, nada nos pode ser impossível quando nos deixamos guiar pelo Projeto de Jesus, o Reino de Deus.

A cena seguinte, (Lc 5,8-11), nos fala mais apuradamente do compromisso de Pedro, resultante de sua fé. Pedro já conhecia o poder de Jesus, quando curou sua sogra. Outrossim, na pescaria inesperada, ele percebe o Mistério da Messianidade de Jesus. Era o Filho de Deus. Com efeito, antes ele chamara Jesus de Mestre (Lc 5,5), agora: o chama de Senhor (Lc 5,8). Algo parecido acontece no Primeiro Testamento, quando Isaías contemplou uma nesga da majestade de Javé (cf. Is 6,5). Para Pedro, aquele era o momento da revelação. Javé agia em Jesus de Nazaré. Suas palavras e ações eram advindas do Pai, seu Pai. Tal constatação nos é apresentada por Lucas quando narra o espanto de Pedro, ao dizer: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador” (Lc 5,8b). Seu espanto é característico de quem teve uma experiência de Deus. O mesmo acontece com Tiago e João, seus companheiros de trabalho.

Experimentar Deus não nos permite inércia. Somos compelidos imediatamente à adesão e compromisso. É o que vemos nas palavras de Jesus dirigidas a Pedro, mas que incluem a Tiago e João e nos chegam a todos hoje: “Não tenhas medo! De hoje em diante, tu serás pescador de homens!” (Lc 5,10b). E deixaram tudo. E seguiram Jesus.

A vocação de Pedro e dos outros discípulos nos infere muitos ensinamentos para o nosso próprio chamado. Também nós somos chamados por Jesus. Assim como antes, com os discípulos, as dificuldades podem nos gerar inseguranças, quiçá, medo. Pedro já era pescador. Jesus lhe confia a missão de ser pescador de homens. Pescar para fazer o que com eles? O Evangelista tem o cuidado de usar o verbo zogrein, em grego. Este vem significar pegar e conservar vivo. Jesus não quer que façamos alguma coisa diferente do que já fazemos. Quer que façamos de modo diferente. Com isso, podemos entender que Jesus respeita nossa realidade. O contexto histórico em que vivemos. A ação de Jesus não anula a história. Vem transformá-la a partir dos valores do Reino de Deus. Isso nos significa dar um novo sentido à história, uma nova direção à vida, colocando tudo a serviço do seguimento de Jesus.

Hoje somos chamados – como Pedro, Tiago e João – a navegar em águas mais profundas, dando um sim radical no seguimento a Jesus. Como os discípulos, somos chamados a ser pescadores de homens. Esta pescaria nos significa trazer para junto de nós, em evangélica acolhida, e conservar a vida. Em tempos de tantas ameaças às liberdades, tantos discursos de ódio, tanta violência gratuita, tantas pedagogias de morte; somos chamados a promover a vida e a liberdade que nos advêm do Evangelho. Na fé que nos leva à ousadia do discipulado, anunciaremos – por palavras e ações – o Reino de Deus no grande mar do mundo e da história.

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